Para a geriatra Deborah Bonini, uma vida feliz depende de amor, saúde e dignidade.

O conceito de geriatria mudou nos últimos anos?
Muito. A maior expectativa de vida fez com que as pessoas passassem a ver o envelhecimento como um processo natural e inevitável, mas que pode ser vivido com qualidade desde que as pessoas conheçam e aceitem suas limitações.

Existe uma medicina antiidade?
A indústria farmacêutica não se cansa de tentar colocar no mercado soluções milagrosas, mas receio que estejam se aproveitando da quantidade de pessoas que procura ajuda nesse sentido. Mas acredito que existam medidas preventivas alimentares, esportivas, terapias ocupacionais e até mesmo alguns medicamentos que podem contribuir para a longevidade.

Há um segredo de como viver muito e com qualidade?
A melhor maneira é conhecer e aceitar as modificações do corpo e evitar o uso desnecessário de medicações “milagrosas”. E principalmente é aceitar que você é importante, capaz e que a felicidade depende primeiro de você. Como dizia Guimarães Rosa: “O real não está na saída e nem na chegada. Está na travessia”. Felicidade independe da idade. Depende de fatores maiores, como amor, saúde, dignidade etc.

Eleja três aspectos de saúde que devem fazer parte da vida de qualquer pessoa nessa faixa etária.
Exercícios físicos, alimentação adequada e bom humor.

 

QUEM É ELA
Formada pela Universidade Federal do Paraná e com especialização pela PUC (SP), em Gerontologia, Deborah Bonini integrou a primeira turma de geriatria da Escola Paulista de Medicina, curso que ajudou a estruturar. Foi diretora clínica e gerente do departamento médico do Lar Golda Meir, onde trabalhou durante 13 anos.






Quais são as vantagens da terceira idade?
Penso que são usar os conhecimentos adquiridos durante toda a vida e mostrar disposição e flexibilidade para aprender novas coisas. Acredito que o tempo de viver sempre será o tempo de agora, principalmente quando se tem saúde. A idade avançada pode ou não ser uma vantagem. Tudo vai depender de como o idoso encara a si mesmo.

O Brasil trata bem seus idosos?
Ah, já foi bem pior, sem dúvida. Hoje, embora lentamente, o país vem tentando dar a eles o que realmente merecem: o Estatuto do Idoso, áreas de lazer e entretenimento, medicações mais acessíveis e ampliação do atendimento médico especializado, domiciliar ou ambulatorial.

Quais os riscos para os atletas que já passaram dos 60?
Devemos sempre respeitar as limitações do corpo. Condicionamento físico, força de vontade, determinação e acompanhamento médico especializado podem minimizar os riscos..

Quando o assunto é sexo entre os maduros, que tabus foram quebrados nos últimos anos?
O que muda com a idade são as formas de se praticar o sexo. É óbvio que as mulheres ainda trazem tabus da sua juventude, onde sexo deveria ser praticado com o intuito de procriação, além de aspectos fisiológicos da menopausa e mudanças no corpo que podem diminuir a libido.

E entre os homens?
Os homens encontram no sexo uma forma de reforçar sua masculinidade, o que os torna mais livres para falar sobre o assunto. É evidente que esses comportamentos vêm apresentando mudanças com o passar dos anos e muitos casais na terceira idade praticam sexo com regularidade.

Que diferenças existem entre as pessoas de terceira idade hoje e as de 20, 30 anos atrás?
São diferenças muito grandes. Pessoas de 60, 70 anos, ainda podem se comportar como jovens de 40 anos. A mulher está mais independente, capaz de expor suas vontades, aspirações, angústias e decepções; e muito mais capaz de dar um basta a qualquer situação avessa às suas vontades, aos seus princípios. Já o homem a respeita mais e também pode ser perfeitamente capaz de refazer sua vida com uma mulher mais jovem sem necessariamente ser tachado de "velho maluco".