Jornal Omint - Outubro/2006
       
     
 


  
  Para a enfermeira obstetra Beatriz Kesselring, maternidade é uma relação amorosa e definitiva.

A mulher fica mais frágil durante a gravidez. Mito ou verdade?
Verdade. Mas os momentos de euforia também fazem parte. O tabu está em achar que a grávida tem de estar sempre sorrindo e feliz. Ela pode se olhar no espelho e se achar feia. Não tem que sentir culpa por isso. A gestante deve se sentir acolhida para poder expressar suas emoções.

Podemos dizer que hoje há uma banalização de cesarianas?
O Brasil tem hoje altos índices de cesárea, o que não nos orgulha. Nos hospitais privados a taxa chega a 75%. Quando indicada corretamente, é fundamental na proteção da saúde da mãe e do bebê. Precisamos fortalecer o parto normal, utilizando a tecnologia disponível, mas sem tirar da mulher o papel principal que ela ocupa no próprio parto.

Amamentar é fácil como nos cartazes?
A amamentação é um aprendizado que exige paciência e dedicação. Há situações que precisam do acompanhamento de um profissional de saúde, como a retirada do excesso de leite ou a dificuldade de alguns bebês em aprender a sugar. Nem sempre a mãe está preparada para enfrentar isso. É preciso querer amamentar. Muitas não querem por uma questão estética, um conceito errado de que a amamentação vai favorecer a flacidez do seio.

 

QUEM É ELA
Beatriz Basile de Castro Kesselring é mestra de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP) e atua na área há mais de 20 anos. Ela integra a equipe de orientação do Programa Boa Hora da Omint, que atende individualmente as gestantes, antes e depois do parto.

 

Então, amamentar não faz cair as mamas?
O que faz o peito cair é o passar do tempo. A mama é composta de células de gordura, glândulas mamárias e músculo, que dá sustentação. A cada ano, essas glândulas vão sendo substituídas por gordura. Uma mulher com 40 anos, tendo ou não amamentado, vai ter a mama quase
completamente composta de tecido adiposo. Como ele pesa, a mama cai. Na gravidez existe uma distensão de pele, mas é a idade e a composição genética de cada mulher que vai determinar a flacidez.

Há mulheres que produzem pouco leite?
É a chamada hipogalactia, e não é freqüente. Mas hoje existem medicamentos que aumentam a produção do leite e técnicas para estimular a sucção. Há também mulheres que têm pouco leite porque passaram por cirurgias de retirada de nódulo de mama ou de redução. Nesses casos a amamentação vai ficar comprometida, mas não impossível.

A depressão pós-parto é muito comum?
Existem duas situações. Uma é o chamado baby blues, vivido pela maioria das mulheres. Trata-se de uma tristeza que vem após o nascimento do bebê, decorrente da queda brusca de hormônios e das mudanças emocionais. Pode durar um ou dois dias. O que diferencia esse estado da depressão pós-parto é que a mãe não perde o desejo de continuar amamentando e cuidando do bebê. A depressão pós-parto é um quadro patológico que precisa de cuidados médicos.

A mãe é hoje muito diferente das avós de ontem? Antigamente se dizia que toda mulher precisava ser mãe para ser mulher. Hoje, a maternidade é mais um papel que ela vai exercer, mas é uma relação definitiva. A mãe que fica com o filho pensando no que está deixando de fazer não tem uma atitude saudável: a qualidade da atenção é que vale. A mãe mudou, o mundo mudou.

Existe uma mãe ideal?
Sim. É a mãe honesta com ela mesma, com o filho, com o marido. Aquela que sabe fazer o filho entender que, apesar do tempo às vezes ser curto, ou de não haver dinheiro suficiente para comprar o brinquedo que ele quer, é sempre o amor que prevalece.