Eles moram com a gente, convivem com nossas crianças e muitas vezes partilham de nossos sofás e camas.
Mas… será que tudo bem?

Os franceses têm certa fama quando o assunto é animais de estimação, pois os tratam como se fossem filhos. Mas em termos de volume de mercado, os americanos são imbatíveis, movimentando nada menos que 41 bilhões de dólares todo ano. E o Brasil, quem diria, já aparece em destaque nesse ranking, com um chamativo segundo lugar: gastamos cerca de 1,5 bilhão de dólares anualmente com nossos cães, gatos e passarinhos – apenas para citar as espécies mais populares.

Tudo bem, ainda não dá para comparar com os Estados Unidos, mas já existem por aqui cerca de 20 mil pet shops. E assim como os franceses, também podemos dizer que os bichos já são parte de nossa família. É comum encontrar cachorros penteadinhos e vestidos para sair, muitas vezes a caminho de um salão de beleza. Em muitos lares, cães ou gatos circulam pela casa sem restrições, não raro dividindo o sofá da sala, a cama e a comida com os donos ou as crianças. Nas ruas, praças e parques, os cães dos outros são nossos amigos também, encantando crianças, adultos e os mais velhos.

A convivência com animais decerto é muito saudável. Médicos e especialistas são os primeiros a recomendá- la. “A interatividade que o cachorro tem com o homem é altamente benéfica, especialmente nos casos de idosos com déficits cognitivos”, diz o dr. Regis Góes, médico geriatra. “Está comprovado que cuidar de um animal, dar comida, banho e atenção é algo estimulante”, afirma ele. Experimentos científicos atestam que um simples toque nos pêlos de um cão ou gato pode ajudar a diminuir nossos batimentos cardíacos e reduzir a tensão. E quando alguém perde um ente querido, uma companhia de quatro patas pode fazer toda a diferença. "O animal traz os desafios de uma nova relação, de um ser que precisa dos cuidados e da atenção da pessoa que teve a perda", diz a dra. Sandra Cohen, psiquiatra.

Enfim, em diversas áreas, da psicologia à fonoaudiologia, profissionais dizem em coro que os bichos podem melhorar a auto-estima, a interação social e até o sistema imunológico das pessoas. Contudo, são unânimes também em afirmar que devemos manter uma rotina de cuidados para que essa convivência seja realmente saudável.

O trem da alergia
O amor incondicional por um bicho de estimação em geral é bem visto pelos médicos, mas existem contra- indicações. Por exemplo, quando esse sentimento
cria uma dependência emocional, do tipo que impede a pessoa de viajar ou ausentar-se por várias horas, tamanha a ansiedade da separação, é hora de procurar o divã do terapeuta. Conforme Regis Góes, é preciso levar em conta o perfil do futuro dono na hora de decidir qual o animal adequado para companhia, especialmente entre os idosos. “O cachorro é interativo, mas é dependente. O gato é reservado, mas é independente”, diz o especialista.

Uma das questões que mais causa preocupação é a da alergia. Cães, gatos, coelhos, hamsters e porquinhos-da-índia às vezes trazem problemas aos mais suscetíveis. “Bichos podem desencadear alergias assim como piorar a situação de indivíduos já alérgicos a outros inalantes, como por exemplo poeira, ácaácaros, mofo e polens” afirma a dra. Cristina Krokon, alergologista. “Até 10% dos indivíduos são alérgicos a animais. Entre os asmáticos, esta proporção aumenta”, diz ela.

Segundo a Academia Americana de Alergia, Asma e Imunologia, a alergia a gato é duas vezes mais freqüente do que a alergia a cães. Mas pode advir do contato com outros animais, já que tem a ver com predisposição genética e com o sistema imunológico de cada um. Ronaldo Silveira, 7 anos, paciente da dra. Cristina Krokon, tem rinite desde o primeiro ano de vida. A mãe observou que a crise aparecia sempre que ele tinha contato com cavalos. “Ele só melhora quando toma antialérgico ou se afasta dos animais”, afirma a médica. Ronaldo fez teste que comprovou alergia aos ácaros da poeira e aos pêlos dos cavalos.

“Existem asmáticos graves que não têm alergia a gato”, afirma a dra. Iara Nely Fiks, pneumologista. “E tem gente com dermatite leve, mas com alergia a gato, mofo, ácaro e remédio. É algo individual.” Segundo ela, muita gente não se dá conta que um dos "bichos" mais perigosos no que diz respeito ao acúmulo de poeira e ácaros é o de pelúcia. “É comum ouvir a mãe dizer que não tem um cachorrinho porque a filha é alérgica e que, no entanto, compra um bicho de pelúcia! Se tiver de comprar um desses, é preferível escolher entre os que são produzidos com outros materiais”, ela recomenda.

 

Derrubando mitos
E quando o alérgico não quer abrir mão do seu gato? “Eu sempre falo que o paciente troca de médico, mas não dá o gato”, diz Iara Fiks, que também é autora dos livros Asma – Superando Mitos e Medos, e DP... o Quê? – Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre a DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. “Se dá para controlar os sintomas com medicamentos e manter o animal no lar, tudo bem. Mas se a criança vive no hospital ou pronto-socorro, tem crises, toma doses altas de cortisona, então temos que chegar a um acordo. Em geral, quando a doença é grave, a família dá um sumiço no gato.”

Quanto às grávidas, Iara Fiks afirma não haver motivo para preocupação. A idéia de que nessa fase o contato com gatos deve ser evitado é só mais um mito. O perigo maior, segundo ela, é a toxoplasmose, o que está principalmente ligado ao consumo de carne vermelha mal passada. “Portanto, o problema para as gestantes não é o contato, como se diz por aí”, diz ela, que tem um cachorro shitzu. “Lá em casa ninguém é alérgico a pêlo de animal.”

Outros bichos
Calcula-se que haja no Brasil cerca de 28 milhões de cães, reforçando uma parceria que começou por volta de 14 mil anos atrás, quando um camponês trouxe para casa um dos lobos mais mansos do grupo. A partir daí, por meio da seleção natural e também das misturas promovidas pelo homem, chegou-se à variedade de raças que conhecemos hoje.

A domesticação de gatos também é milenar. Entre os registros históricos mais consagrados, sabemos que no Egito Antigo eles eram adorados como deuses. Hoje, cães e gatos povoam nossos lares, muitas vezes dando a impressão de que são os donos do pedaço (não deixe de ler a entrevista com o adestrador Alexandre Rossi, na página seguinte).

Aves também são parte de nosso dia-a-dia. Não mais as galinhas e patos que nossos avós criavam no quintal, mas canários, periquitos e papagaios, entre outras espécies de gaiola ou poleiro. E aí também é preciso cuidado, pois esses bichos podem ser perigosos para os seres humanos, especialmente os alérgicos. Viveiros e gaiolas têm muitas penas, bactérias, fungos, detritos orgânicos e ácaros. Mesmo os menos suscetíveis fariam bem em redobrar a atenção ao lidar com passarinhos, pombos e papagaios, evitando adquirir pneumonia de hipersensibilidade. Os papagaios podem provocar psitacose, uma doença bacteriana. Os pombos, símbolos da paz, demandam uma guerra para deixarem nossos telhados. Chamados por muitos
de “ratos com asas”, eles carregam grande quantidade de agentes patogênicos, entre eles o criptococus,
um tipo de fungo que pode causar meningite.

A regra geral é a do bom senso. Partilhar nossa existência com a dos animais costuma ser razão de alegria e desenvolvimento saudável. Por outro lado, pode trazer problemas se não observarmos as características deles e também as nossas. Na dúvida, procure
um de seu melhores amigos: o médico.

 


Ar puro
Não use aparelhos de purificação de ar se tiver alguma alergia: esses equipamentos têm um alcance muito pequeno, não funcionam
em ambientes grandes. É mais eficiente colocar uma bacia com água para aumentar a umidade.

Cuidado com o cloro
Natação não cura asma, nem alergia, nem rinite alérgica. Ao contrário, o cloro pode até
piorar os quadros de rinite e conjuntivite.

Alergia
O melhor tratamento para alergia é afastar- se daquilo que causa alergia, seja isso
um alimento ou um animal. Quem é alérgico deve evitar beijar, abraçar, cheirar os
animais, porque os pêlos e a saliva deles podem incrementar o processo alérgico.

Cama
É na cama que bichos e seres humanos encontram as maiores contra-indicações.
Por mais afável e tranqüila que seja a relação com os bichos, devemos evitar que eles durmam na nossa cama ou sobre nossos travesseiros, almofadas e sofás.

Travesseiros
Evite travesseiros de penas: ficar exposto a elas durante todo o período do sono pode
agravar bastante um quadro alérgico. Mantenha- os sempre limpos, trocando as capas
e fronhas com regularidade.

Quarto
Evite cortinas e carpetes no quarto, pois eles retêm pêlos e outros agentes causadores de
alergia com facilidade. Algodão, espuma, capa anti-alérgica, tudo deve ser lavado com água quente. No inverno, edredons, mantas e pulôveres devem ser tirados do armário,
lavados com água quente e secos ao sol. Deixe o quarto o mais ensolarado possível.

Limpeza
Os ambientes devem ser limpos com freqüência para remoção dos agentes alérgicos.
Aspiradores com filtro Hepa (High Efficiency Particulate Arresting) podem dar conta do
recado. Banho nos animais, pelo menos uma vez por semana, também é uma medida útil.

Vacinação
Mantenha a vacinação de seu bicho em dia e dê vermífugos com freqüência. As verminoses
provocam a queda de pêlos, abrindo as portas para outras doenças.

• Tosa
Aparar os pêlos do Totó não é um luxo, mas uma necessidade.

Passeios
Vida sedentária não serve para as pessoas nem para os animais. Passear sempre com
eles é muito importante.

Cheiros
Cães e gatos sentem grande prazer em cheirar. É pelo olfato que eles farejam o mundo.
Respeite esse direito e evite atitudes bizarras como passar perfumes e essências neles.