Precisamos nos colocar no lugar dos animais para entender o que eles estão entendendo

Bicho é brinquedo?
Não. Cada vez mais a ciência comprova que os animais têm os sentimentos básicos, principalmente os mamíferos. Eles sofrem, sentem dor, desenvolvem problemas de comportamento e assim por diante.

Temos de educar os bichos ou as crianças?
Os dois. Temos que ser firmes para que as crianças não machuquem ou desagradem os animais. Eles precisam ter locais reservados na casa onde as crianças ficam proibidas de ir. Muitas vezes, o cachorro está com dor, não quer brincar, e acaba ficando agressivo quando importunado.

Há animais que curtem uma pegação?
Há coisas que agradam a uns, não a outros. Muitos se sentem ameaçados ao serem abraçados por crianças. Mesmo nos cães mais dóceis, é bom evitar o abraço completo, aquele que imobiliza. Cachorros também costumam não gostar que agarrem sua pata. É normal educá-lo para dar a patinha, tudo bem, mas tem criança que não larga, e aí há chance de
uma reação mais agressiva.

Todo cachorro gosta de colo?
Não. Há cães mais dominantes que não gostam de abraços ou colo, como o rottweiler. Outros já adoram esse contato próximo, como o golden retriever e o labrador. Porém, há diferenças de temperamento entre animais da mesma raça. Há labradores que, de tão elétricos, não agüentam ficar parados, enquanto outros podem nem dar atenção para uma bolinha jogada para brincar. Portanto, a personalidade do cachorro influencia mais do que a raça.

Com os gatos é diferente?
Os gatos são mais independentes que os cães. Se crianças ou adultos ficam atrás e não respeitam seu tempo e suas vontades, é muito comum que o gato se isole para evitar contato. Em geral têm esse perfil de querer colo, carinho, dormir junto. Mesmo assim, se alguém não dá sossego ao bicho, a chance de ele vir a evitar essa pessoa é grande.

 

QUEM É ELE
Alexandre Rossi cursou a Faculdade de Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), tem especialização em comportamento animal pela Universidade de Queensland, Austrália, e mestrado em psicologia animal pela USP.
É autor de Adestramento Inteligente (Editora CMS), co-autor de Meu Irmão, o Cão (Editora Germinal), e acaba de lançar Os Segredos dos Gatos (Editora Globo)


Os cães gostam mesmo de aprender gracinhas, como sentar, dar a pata, buscar o jornal?
Para cachorros, eu diria que isso é necessário. Pedir um comportamento é mostrar quem é o líder. Se os cães não sentirem a liderança, quando contrariados, podem ficar agressivos, rosnar em situações triviais como a hora de pôr ou retirar a coleira. É comum também tentarem dominar o
espaço do elevador ou não deixarem a empregada servir o cafezinho. Ora, eles se acham os líderes! Vários problemas podem ser evitados se mostramos liderança e recompensamos sua obediência.

Seria também uma maneira de manter o animal ativo?
Exatamente. A gente coloca o animal em casa, não dá atividade, põe a comida e ele come tudo em dois segundos. Na natureza, ele passaria 70% do tempo procurando alimento. Quando ele tem algum trabalho está sendo estimulado física e cognitivamente. Quando ensinamos um comando, estabelecemos uma comunicação que não só aproxima, como melhora a compreensão que temos do animal. Você precisa se colocar no lugar dele para entender o que ele está entendendo.

Comida de gente serve para os animais?
Sim. Mas com cuidados, porque algumas fazem mal e podem até ser venenosas. Chocolate e cebola, por exemplo, devem ser evitados, assim como alho em quantidade e a maioria das coisas que contêm açúcar. Osso de galinha ou qualquer outro que possa quebrar e formar um lado
pontiagudo são perigosíssimos, podem perfurar o estômago ou o intestino. Na dúvida ou na falta do acompanhamento de um profissional, é melhor ficar só na ração.

Quais são as novas tecnologias para nos auxiliar com nossos bichos?
Tem uma coleira tradutora de latidos que, supostamente, diz o que o cachorro está querendo. Eu testei e em 90% dos casos a coleira erra. Entre as boas tecnologias, há coleiras GPS que informam a localização do cachorro. Se o animal sai de uma área delimitada, o dono recebe uma mensagem no celular. Outras, muito vendidas, são as coleiras que produzem estímulos desagradáveis – um susto, um sopro de ar, uma vibração, acionados por controle remoto ou automaticamente. Certas coleiras dão um leve choque a cada latido, mas às vezes o cachorro do lado faz isso, o dispositivo dispara e o inocente é que leva a “bronca”.

A vizinhança deve estar adorando essas maravilhas.
Há quem use esses equipamentos para evitar incômodos. Mas o cachorro late porque está sozinho, porque fica ansioso, e se algo desagradável acontece – como o choque da coleira – mais sua ansiedade aumenta. Se ele pára de latir, o problema pode se manifestar de jeito pior, como uma
gastrite forte, automutilação ou dermatite psicogênica (quando o cão começa a lamber o pelo e chega a ferir a pele).

Se um cão pudesse fazer sua agenda diária, como seria?
Primeiro, iria querer pertencer a um grupo. Passear talvez fosse algo que eles gostariam de fazer cinco vezes ao dia. Outra coisa é o acasalamento. Experimentos mostram que um cachorro é capaz de morrer de fome se tiver de escolher entre comer e cruzar.