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Levando a sério a brincadeira

Especialistas explicam a importância do brincar para as crianças – mas não só para elas.

20/08/2018

Levando a sério a brincadeira

Especialistas explicam a importância do brincar

para as crianças – mas não só para elas.

 

por Angélica Queiroz

 

Brincar é essencial para crianças trabalharem suas limitações, potencialidades e habilidades em aspectos sociais, cognitivos e físicos – e tudo isso vale para os adultos, também. Mas existe hora para brincar? Ou um jeito certo? Tecnologia ajuda ou atrapalha? De que maneira a brincadeira contribui em nossa formação e atitude diante do mundo? A Omint dedica o mês de julho ao Brincar conversando com especialistas da rede credenciada e encontra razões para se levar o assunto bem a sério. Boa leitura!

 

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A brincadeira simula a vida

Visão, olfato, tato, audição e paladar… É nas brincadeiras que os sentidos externos são primeiramente estimulados – e, para além dos aspectos físicos, é brincando que a criança passa a ter contato com o que é real e o que é imaginário. “Quando pega um brinquedo e finge que é alguma coisa, ela desenvolve o raciocínio, o pensamento abstrato”, afirma o clínico geral e médico de família dr. Carlos Frederico Campos. Segundo ele, mais do que diversão, trata-se de manter a imunidade em equilíbrio. “Se a gente entender que qualquer atividade de lazer é um tipo de brincadeira, temos ainda melhoras significativas em quadros de depressão e ansiedade, por vezes até evitando uso de medicação.”

 

Fantasias reveladoras

Para a psicóloga infantil dra. Daniela Lasgani, brincar permite à criança simular a relação do mundo interno com o mundo externo e, por isso, é uma técnica importante para as observações do terapeuta. “A brincadeira é uma forma distanciada e menos ameaçadora de lidar com um problema, inclusive entre os adultos. Às vezes, é mais fácil falar de algo que está acontecendo por meio de personagens, o que nos dá recursos para olhar diretamente para o real e encontrar soluções criativas.” Segundo a especialista, os próprios pais podem manter esse olhar atento sobre os pequenos durante as brincadeiras, observando seu comportamento e a possível existência de algum problema.

 

Destruir e reconstruir

Segundo a psiquiatra infantil dra. Arianne Angelelli, o brincar remete à nossa capacidade de imaginar, fantasiar e simbolizar. “Quando a criança chega e diz ‘faz de conta que você é o capitão e eu sou marinheiro e estamos indo pra um lugar e tem uma bruxa correndo atrás da gente’, está desenvolvendo sua criatividade.” Para a especialista, na infância é importante ter a capacidade de, por exemplo, transformar um graveto numa espada e fingir que é um pirata; ou fazer uma bola de papel e depois a rasgar em pedacinhos. “O brincar também tem a ver com o destruir e reconstruir.”

 

Resgatando brincadeiras

“Quando eu era criança, a gente brincava na rua de pega-pega, futebol, queimada, andava de bicicleta… Hoje, na maioria das grandes cidades, isso praticamente inexiste”, comenta o ortopedista infantil dr. Antônio Carlos Fernandes. Ele observa que a mudança de hábitos não parece boa para a saúde das crianças. “Existe uma tendência de menos exercício físico, que chamamos de sedentarismo pediátrico, fenômeno que aumenta a incidência de sobrepeso e obesidade infantil. Isso faz com que apareçam mais cedo alterações no colesterol ou na glicose, problemas que antes só víamos em adultos.” Crianças criadas em uma cultura de pouca atividade ao ar livre, com músculos não tão preparados por falta de estímulo, estão mais sujeitas a um menor vigor físico. “Os pais precisam olhar para isso e resgatar certas brincadeiras tradicionais, ao invés de só tratar as consequências.”

 

Carrinho ou tablet?

Para a psicóloga infantil dra. Daniela Lasgani, brinquedos automatizados, do tipo que fazem tudo sozinhos, podem limitar o aprendizado – ainda que não necessariamente. “Veja, não depende só do brinquedo, mas também do laço afetivo com aquele objeto e de como as crianças lidam com ele.” É comum ouvir dos pais que as crianças preferem os itens mais avançados e tecnológicos. “Elas precisam é de referências, mas os adultos também estão viciados na tecnologia. Se as pessoas com as quais essa criança tem laços afetivos valorizam mais o carrinho que o tablet, talvez ela se interesse mais pelo carrinho.”

 

Nem precisa ser criança

A brincadeira é conhecida como aliada também entre os profissionais que trabalham com os mais velhos, que precisam de estímulos para manter boa atividade dos circuitos do cérebro e minimizar perdas motoras e cognitivas. Para a geriatra e gerontóloga dra. Márcia Oka, é equivocada a ideia de que brincar é só coisa de criança. “Ainda existe preconceito nas famílias e entre os próprios pacientes quando apresentamos atividades recreativas como parte do tratamento, mas a verdade é que elas podem trazer diversos benefícios. Vários estudos mostram que o contato social retarda o aparecimento de doenças cognitivas.” Para ela, a multidisciplinaridade e a inclusão da família são essenciais na busca por melhor qualidade de vida com o passar dos anos. “A maior parte dos geriatras sabe disso: muitas vezes, só a terapia medicamental não resolve o problema.”

 

Brincar para ser feliz

Entre os adultos, conforme a psiquiatra infantil dra. Arianne Angelelli, a experiência de brincadeiras na infância influi na capacidade de viver a vida criativamente nas relações com as pessoas, com o trabalho e o mundo. “Se eu não sentir que estou fazendo parte de uma sociedade com minhas ideias, com meus desejos, vou me sentir vazio. Então o brincar, no adulto, se transforma em sua capacidade criativa.”  Segundo ela, o mundo hoje tem receitas de felicidade para quase tudo mas, na verdade, não é fácil alcançá-la. “Alguém que cuida de um jardim e ganha R$ 3 mil por mês pode ter uma sensação de felicidade e plenitude maior que a de um CEO que recebe R$ 100 mil, porque este último tem muito sucesso, mas não sente estar fazendo algo dele mesmo. O sentimento de felicidade vem lá de trás, da sensação do brincar, da minha integração com meu próprio corpo, com meu próprio sentimento.”

 

Nada melhor do que não fazer nada

Está todo mundo muito ocupado, inclusive as crianças, e assim a brincadeira pode acabar se confundindo com mais uma obrigação, sugere a psicóloga infantil dra. Daniela Lasgani. “Acaba virando uma cobrança, com vínculos empobrecidos de afeto – não porque o afeto não existe, mas porque fica distanciado devido à quantidade de tarefas.” Segundo ela, as crianças também precisam do ócio para se interessarem pelas brincadeiras e serem criativas, mas quase sempre entram na mesma atmosfera dos adultos, que levam a vida sem ter tempo para nada. “Como a criança vai dar a devida importância para o brincar se os pais colocam um monte de prioridades na frente? A brincadeira precisa ter o mesmo valor que a aula de inglês – que, talvez, nem deva ser oferecida agora, porque a criança precisa ter tempo de desenvolver outras coisas antes até de aprender inglês.”

 

Com rodas nos pés

É comum que crianças e jovens se machuquem durante as brincadeiras, especialmente em atividades mais radicais, em que as quedas são frequentes. Especialista em ortopedia e traumatologia, com anos e anos de atendimento às crianças da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), dr. Antônio Carlos Fernandes tem duas recomendações tão básicas quanto importantes: alongamento antes das atividades e uso disciplinado de equipamentos de segurança. “Mesmo que seja só uma brincadeira, é essencial proteger as áreas mais suscetíveis a traumas.” Capacetes, joelheiras e cotoveleiras são fundamentais para quem tem filhos com rodas nos pés. “Andar de skate é um bom exemplo, pois sabidamente oferece maior risco.”

 

Muito além do tabuleiro

Atividades lúdicas e recreativas entre os que deixaram de ser crianças há muito tempo, segundo a geriatra e gerontóloga dra. Márcia Oka, começam no estímulo ao convívio familiar – como jogar cartas, xadrez ou bingo com os netos. Essas atividades são ótimas, mas não são as únicas. “Pouca gente sabe, mas a dança melhora a cognição e a parte motora – e ainda trabalha a memória, já que os movimentos devem ser feitos junto com o ritmo da música.” Yoga e meditação, de acordo com a especialista, também podem ser benéficas para a saúde integral dos mais velhos. “São práticas que trabalham a respiração, o equilíbrio e a atenção.” A orientação da médica é sempre optar por locais especializados, que contam com profissionais para direcionar as atividades com o cuidado que a idade e a condição de cada um exige. “A ideia não é meramente passar o tempo, mas trabalhar com algo que possa fazer bem para aquele quadro, com o que a pessoa está precisando.”

 

Energia na caixinha

Para a brincadeira ser integral, precisa mexer com aspectos físicos e psíquicos, mas com a falta de tempo para tudo e os apelos da tecnologia, as crianças estão brincando menos com o corpo e, por isso, acumulando muita energia. Esse é o cenário, segundo a psicóloga infantil dra. Daniela Lasgani, em que se tornam cada vez mais comuns os diagnósticos de transtorno de ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade. “Existem questões cerebrais patológicas que levam a esses sintomas, mas a porcentagem é bem menor do que a quantidade de crianças diagnosticadas.” De acordo com a especialista, quando a gente não consegue dar vazão suficiente à energia acumulada, ela pode se manifestar em sintomas físicos mais agudos ou mesmo psicológicos. E se os sintomas psicológicos não encontram caminho, podem se manifestar no corpo. “Por que essa criança está com dor nas costas? Será que ela carrega muito peso na vida? Se for isso, não adianta simplesmente  tratar com o ortopedista. Ela precisa também mudar a postura dela frente ao mundo.”

 

Brincar é para todos

Ortopedista e traumatologista com extensa atuação junto à Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), o dr. Antônio Carlos Fernandes afirma que há brincadeiras para todas as crianças, inclusive as que possuem alguma deficiência. “Uma criança numa cadeira de rodas, por exemplo, pode até dançar balé.” A aproximação entre o médico e o paciente proporcionada por essas atividades é ainda mais importante, pois auxilia nas indicações precisas para cada caso. “A gente consegue trabalhar habilidades da criança dentro do que a condição física permite, e isso acaba fazendo parte do tratamento.”

 

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SÁBIOS CONSELHOS

As dicas dos especialistas para brincar (e viver) melhor.

 

Pratique a presença

Brincar menos tempo com as crianças, mas estando ali de corpo e alma, é melhor do que brincar mais tempo com a cabeça lá longe…

 

Acredite no faz de conta

Imaginação e criatividade ajudam crianças e adultos a lidar com as questões da vida de forma mais saudável.

 

Ponha pilha nas crianças

Brinquedos eletrônicos nem sempre são vilões, mas é importante oferecer outras opções de brincadeira, valorizando atividades físicas e ao ar livre.

 

Leve a sério a segurança

Capacete, joelheira, tornozeleira, caneleira, cotoveleira… Muita dor de cabeça pode ser evitada com o uso de equipamentos de segurança.

 

Entregue-se de corpo e alma

Cultue o ócio criativo em família e evite tratar a brincadeira como mais uma tarefa agendada e obrigatória.

 

Integre toda a família

Sociabilização e alegria são a chave para manter os mais velhos ativos e garantir qualidade de vida com o passar dos anos.