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Nosso pequeno grande mundo

Publisher de revistas de sucesso, entre elas uma dedicada a viagens de sonho, Claudio Mello conta como fez da alegria de viver um negócio e dá dicas de onde ir, quando ir – ou mesmo não ir: "Tudo depende de como você está".

20/08/2018

Nosso pequeno grande mundo
Publisher de revistas de sucesso, entre elas uma dedicada a viagens de sonho, Claudio Mello conta como fez da alegria de viver um negócio e dá dicas de onde ir, quando ir – ou mesmo não ir: “Tudo depende de como você está”.  

 

por Otávio Rodrigues

 

Ponta Grossa, no Paraná, também conhecida como “A Princesa dos Campos”, fica a pouco mais de cem quilômetros da capital. É uma cidade próspera, a quarta mais importante para a economia do estado, entre outros louros, mas nem de longe seria indicada como base para um bem-sucedido negócio editorial. Claudio Mello, claro, não levou isso em conta. Logo estaria atuando em Curitiba e, pouco depois, em São Paulo, onde  hoje comanda as redações e operações das revistas Top Magazine, Top Carros e Top Destinos. “Pessoas da minha cidade – incluindo o prefeito, que é meu amigo – às vezes vêm me visitar e falam: ‘Poxa, Claudinho, mas você continua fazendo a mesma coisa!’ Sim, o mesmo que fazia em Ponta Grossa, o mesmo que fazia em Curitiba e o mesmo que faço em São Paulo e em outras cidades: sempre vendendo publicidade.”

Em tempos de crescimento da mídia digital e novas formas de comunicação de massa, a performance das revistas de papel de Claudio Mello chamam a atenção, com páginas e páginas de anúncios e uma invejável carteira de assinantes. “Tenho de, primeiro, conquistar as pessoas que estão comandando as grandes empresas, pois são elas que assinam os cheques. Depois, tenho de entrar na alma delas e fazer com que seus olhos brilhem para minhas revistas, assim como acontece com todos os leitores.” A direção de arte, hoje a cargo da Almap, já teve nomes como Tomás Lorente e Marcelo Serpa. Cláudio acredita que a embalagem é importante. “Cada página dupla das revistas precisa ter o impacto de um anúncio. Tem de ser assim, porque se eu não tiver fotos bonitas, se eu não tiver imagens lindas, as pessoas não vão parar para ler.”

A Top Destinos é a publicação da casa dedicada a viagens e turismo, só que com uma pegada diferente. “A ideia foi fazer uma revista para quem viaja várias vezes para o mesmo lugar, só que mostrando coisas novas.” Dicas, observações, impressões e até ideias filosóficas sobre viagens e viajantes dão o rumo nesta conversa com o publisher Claudio Mello. Confira!

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Por que mais uma revista de viagem?

Nossos clientes, quando iam viajar, ligavam perguntando: ‘Ah, onde eu fico em Paris?’ Comecei a ver que não existia uma revista que falasse com essas pessoas, principalmente as do mundo corporativo, que viajam muito. Elas sempre estão em Paris a trabalho, em Nova York a trabalho… A ideia foi fazer uma revista para quem viaja varias vezes para o mesmo lugar, mostrar coisas novas desses lugares.

O mercado continua crescendo?

Sim, principalmente nos últimos anos, com a quantidade de companhias aéreas que vieram para o Brasil, e com a internet ajudando a divulgar os destinos. Hoje, todo mundo fala sobre viagens quando se encontra. Os posts mais curtidos na internet são sobre viagens. O melhor cenário para você colocar nas suas redes sociais é um destino – e quanto mais longe, mais exótico, mais diferente for, mais likes você tem. E usamos isso a nosso favor, produzindo matérias que levem essas pessoas a, quando estiverem lá, terem muitos likes em seu Instagram.

Ninguém mais vai ao aeroporto se despedir de quem viaja, certo?

Não! O mundo ficou pequeno demais. Na primeira viagem internacional que dei para minha mãe, ela me ligou revoltada do aeroporto, porque tinha se maquiado inteira, estava arrumada, e todo mundo lá em Guarulhos indo viajar à vontade. ‘Claudio, eu imaginei outra coisa, achei que tinha mais charme!’.

 

Você conhece o mundo todo?

Não. Por exemplo, eu não conheço o Peru, Machu Picchu, e acredito que é um lugar incrível, tem uma energia incrível… Mas de tanto a equipe da revista ter ido, várias matérias, tantas pessoas postando, é um lugar que me breca um pouco. Sei que vai surgir oportunidade de ir lá um dia.

 

Qual a viagem ideal?

Viagem tem a ver com como você está – se está sozinho, se está bem sozinho, se está se relacionando com alguém, se quer impressionar alguém, se quer ver uma mulher se apaixonar por você de vez…

 

Qual seria esse lugar?

Nada como Maldivas. É incrível! A mente não acredita o que os olhos estão enxergando quando vê aquela cor de mar… Lá, levou, morreu: apaixona!

 

Além de Ibiza, onde rolam as melhores baladas de hoje?

Tem grandes festas em Miami. Saint Tropez é um lugar incrível, mas não para ir sozinho. Assim como em outras rivieras dos litorais da Europa, tem muita gente bonita e rica. Ir com uma turma é sempre mais divertido.

 

Ainda existe glamour nas viagens?

Depende muito da época do ano. Se você vai a Paris na semana de moda, fica em um dos hotéis que fazem parte do circuito, aí é um glamour, porque são pessoas que estão lá super produzidas, são uma obra de arte, o cabelo é feito por um grande artista, a maquiagem por outro, a roupa… O mesmo se você vai para Saint Tropez, ou Cannes, nos festivais de cinema ou publicidade.

 

O que é um hotel de luxo?

Não adianta chegar em Paris para dizer que está e não se sentir bem lá, ter de descer para tomar café da manhã todo arrumado. Em qualquer lugar do mundo, eu desço de moletom para tomar café da manhã – é até uma forma de avaliar as pessoas, como elas vão olhar. Eu fico em alguns hotéis considerados os melhores e mais luxuosos e percebo que o maior desafio deles, hoje, é fazer com que você entre e se sinta como se estivesse em sua própria casa.

 

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Uma viagem para não se estressar com os filhos

Um tipo de viagem que gosto muito e recomendo é safári. São as melhores viagens em família, o melhor destino. África! Porque você não precisa negociar com seus filhos, aquilo de um querer ir para cá, o outro para lá… É um destino certeiro! Quando você entra naquele jeep, todo mundo pula junto. Na primeira vez que fui, pensei, eu é que não vou usar essas roupas de Indiana Jones… Bem, depois do primeiro passeio, fui direto para uma lojinha e saí igual ao Indiana Jones, de tão legal que é. E todo mundo gosta. É uma aventura, um entretenimento real, não é algo criado pelo homem.

 

Uma comida para amar ou odiar

Comida é algo que também leva as pessoas a viajar, principalmente nós, brasileiros, que temos ascendência muito forte de italianos, portugueses e japoneses. Os destinos asiáticos, por exemplo, têm sido muito procurados. Mas é engraçado que, quando conto que fui para a Tailândia e amei, os mais velhos falam logo que não gostam da comida, enquanto os mais jovens adoram – vão lá para isso.

 

Um país admirável

Eu considero Tóquio um dos destinos mais futuristas do mundo. Não pela tecnologia – especialmente depois que conheci Seul, o verdadeiro mundo da alta tecnologia. Mas Tóquio é o futuro porque você anda na principal rua deles, com muitos carros, milhões de pessoas caminhando, e escuta um pássaro preto que voa lá, cantando… Todo mundo fala baixo, é uma educação do além. Minha mãe é professora, levei ela comigo numa viagem ao Japão, estávamos andando e ela me chamou para ver uma escola, ficamos observando pela janela: crianças de cinco anos de idade na sala, na hora em que terminava a aula, e elas arrumando as carteiras, limpando a sala inteira para só então ir embora. Para mim, isso é outro mundo.

 

Uma lição que não se esquece

Quando eu era criança, meu pai brigava para que a gente estudasse muito. Hoje, para quem tem a oportunidade de levar os filhos para viajar, afirmo: é a melhor escola que tem. Por exemplo, você entra em um museu em Chicago e tem lá um submarino da Segunda Guerra intacto, e daí você já aprende algo sobre a guerra. Vai ali e tem um tornado que eles fizeram em laboratório, e você aprende mais sobre a questão ambiental. Ou seja, quando você conhece o mundo, fica mais fácil. Na escola o professor fica explicando sobre geografia, história, biologia, matemática – é muito chato! A gente tem outros interesses quando é criança. Portanto, quando tem essa experiência de poder viajar desde cedo, você aprende a costura de Deus, como ele costurou o mundo. É muito legal.

 

Um motivo de reflexão

Conheci Dubai há certo tempo, voltei algumas vezes, estive dois dias por lá neste ano. É muito interessante ver o que dinheiro pode fazer por uma cidade, mas eu a recomendo para famílias e casais, por conta do código religioso. Eu, certa vez, estava lá com a namorada em um beijo mais apaixonado, veio um homem e puxou minha orelha. Foi erro meu, claro, porque cada país tem sua cultura, e concordo que a gente tem de seguir os costumes locais. Não acho legal ir a um país e criticar seu modo de vida. A gente tem de observar e pensar sobre aquilo. Eu gosto de visitar países do mundo árabe, já estive em alguns mais ortodoxos, outros menos… Esse é um destino, também: visitar a fé das pessoas, conhecer a fé de uma região. Em cada destino se aprende alguma coisa – só precisa estar com as antenas ligadas, entrar na frequência do lugar.

 

Um lugar perfeito do jeito que é

Um destino que todas as pessoas deveriam conhecer é Veneza. É mesmo um museu a céu aberto, muito linda. Tem quem reclame da poluição da água, mas há lugares em que a gente precisa desligar alguns sentidos e deixar outros funcionarem com mais potência. Na Austrália, por exemplo, em Melbourne, tem um rio lindo e um calçadão em volta, uma área onde estão os artistas, os músicos, onde todo mundo vai para passear no final de semana. Só que, ao lado do rio também tem umas moscas grandes, que vêm e colam em você. Acho que se não tivesse moscas lá, não teria graça, elas já são uma atração do turismo local.

 

Um lugar de cores improváveis

Ruim por um lado, bom por outro, a foto digital revolucionou tudo. Hoje você vai viajar com um celular e faz fotos impressionantes, sem falar nos aplicativos. Tudo virou mais. Você vai lá e tira as olheiras, põe mais cabelo, faz tudo. Os destinos ficaram mais bonitos, a palmeira verde está quase fosforescente de tão verde. É bom, mas por outro lado tira a fantasia das pessoas, porque quando você imagina o lugar e, ao chegar lá, não é bem aquilo tudo… E tem a torre Eiffell, coitada,        tão popular que pararam de fotografá-la – e as pessoas não querem que os outros pensem que é a primeira vez delas em Paris.

 

Um olhar curioso sobre tudo

O que sempre recomendo: ser curioso. O curioso sempre leva vantagem em tudo, chega nos lugares onde ninguém chegou, não tem vergonha de perguntar. Em viagem eu não levo livro nem revista, gosto de chegar. Todo ano vou no salão de automóveis de Genebra, já sei quais são os melhores restaurantes, mas entro numa loja e pergunto onde tem um bom lugar para comer. E vou! Na maioria das vezes, eu acerto. Tem gente que viaja e fica fazendo “xizinho” em quantos restaurantes com estrelas Michelin elas foram. Tudo bem, os chefs são pessoas que estudaram muito a culinária, e estão lá preparando os pratos, mas também existem coisas tão saborosas quanto, capaz de fazer os olhos brilharem. A comida se aprecia com a mente, não com o estômago.

 

Uma proteção para cair no mundo

Uma coisa importante é plano de saúde. Quando vim morar em São Paulo, procurei uma empresa que me atendesse em qualquer lugar do mundo, e vai me atender – é a Omint. Recomendo para todos. Outra coisa importante em uma viagem é dinheiro. Com dinheiro e cartão de crédito, a gente se ajeita diante de qualquer perrengue. Eu levava muito a câmera fotográfica, também, mas hoje conto mais com o celular. Cada vez mais, só o indispensável. O resto, você consegue comprar lá.

 

Um lugar para não voltar

Todo destino merece uma segunda chance. Porque talvez eu, na época em que fui, não estivesse preparado para desafiá-lo – ou também não estarei agora, se voltar. Mas todo destino merece uma segunda chance. Porque viagem tem muito a ver com como a pessoa está. Tem gente muito ligada em espiritualidade, ioga, que procura a Índia ou alguns destinos asiáticos para meditar e, para elas, isso é o paraíso. Para pessoas altamente consumistas, que não gostam disso, esse lugar seria um inferno.

 

Uma razão para viajar

As pessoas devem trabalhar e se divertir, mas viajar muito, porque assim vão trabalhar melhor e se divertir mais ainda. Sempre comento que, se você está numa mesa com amigos e sua viagem é a mais distante ou diferente, você vai ser o foco da conversa. Viajar, portanto, hoje faz parte da ideia de você conquistar o mundo – no trabalho, com informações, nos relacionamentos, porque o destino ensina a gente. O destino acaba fazendo o nosso destino.