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Os três cérebros de Eugênio Mussak

O professor e conferencista fala sobre ser bonzinho e ser justo, atingir a meta e salvar a pele, entre outras questões importantes que não devemos perder de vista.

20/08/2018

Os três cérebros de Eugênio Mussak

O professor e conferencista fala sobre ser bonzinho e ser justo,
atingir a meta e salvar a pele, entre outras questões importantes
que não devemos perder de vista.    

 

por Otávio Rodrigues

 

O rapaz interrompe o trabalho na baia por alguns instantes e fixa o olhar no corredor à frente, mirando um ponto específico do carpete cinza. A colega ao lado percebe o transe, provoca e logo obtém a explicação: “Estou vendo quantas pessoas passam sobre aquele clip sem fazer nada.” O diálogo prossegue na tela, os dois colegas refletem juntos e comentam a situação, até que um corte coloca em cena o professor Eugênio Mussak. Combinando seus conhecimentos sobre a biologia e o comportamento humanos, relações sociais e de trabalho, ele discorre sobre o clip abandonado no chão e as chances que temos de melhorar o mundo enquanto melhoramos a nós mesmos.

A produção desse e de muitos outros filmes breves, repletos de ideias simples e consistentes sobre a experiência humana e a vida corporativa, têm movimentado a plataforma de comunicação desse médico e professor universitário que, desde meados dos anos 1990, atua como consultor e conferencista, com brilhante atuação em Educação Corporativa. No pequeno e bem equipado estúdio de áudio e vídeo – um dos ambientes de uma casa de vila em Pinheiros, bairro paulistano agora assinalado por grandes avenidas e edifícios –, Mussak relembra sua convivência com o dr. Cooper (cujo sobrenome virou sinônimo de corrida no Brasil), entre outros episódios interessantes, capazes de despertar algo novo em nós. Confira!

 

Os 7 fatores da saúde

“Tive a oportunidade de estagiar, em 1991, num renomado instituto de check-up e treinamento, o Aerobics Center of Dallas, criado pelo dr. Kenneth Cooper, o sujeito que diz para a humanidade caminhar depressa ou correr devagar, porque faz bem à saúde. E acabei ajudando a tabular uma pesquisa que buscava saber o que que fazia uma pessoa ter saúde e outra, não. Porque existem dois extremos – um é saúde, outro é doença –, mas há um intervalo entre eles, que é onde estamos todos nós, alguns mais para cima, outros mais para baixo. E assim o dr. Cooper, com auxílio de instituições do país inteiro, listou o que chamou de ‘fatores promotores da doença’ e ‘fatores promotores da saúde’. E estes últimos, os que nos importam nesta conversa, são sete.”

Todos precisam saber que fatores são esses, e seria natural que o entrevistado recorresse a livros ou anotações para facilitar as coisas e entregar logo o que os repórteres querem. O professor Mussak, porém, tem tudo na ponta da língua, em edição revista e comentada…

 

1 Exercício físico – Somos programados para estar em atividade física e, quando não nos dedicamos a isso, vamos contra nossa própria natureza, o que resulta em menos saúde.

 

2 Nutrição – Podemos até comer de tudo, mas tomando cuidado com a quantidade.

 

3 Sono – Já se sabia, em 1991, que a qualidade do dormir é muito importante para a qualidade de vida.

 

4 Controle do estresse – Cada vez mais recorremos a técnicas para administrar as exigências do dia a dia e perseguir a propalada paz no caos.

 

5 Auto-estima – Menos óbvia, talvez, mas é certo que sua falta prejudica a saúde de modo geral.

 

6 Relações humanas – Amigos, família, filhos, ambiente de trabalho, contato humano diverso… a qualidade dessas relações colabora bastante para a saúde.

 

7 Visão de futuro – Gente com expectativas positivas em relação ao futuro, que faz planos e tem sonhos objetivos são potencialmente mais saudáveis.

 

 

Qual cérebro você usa mais?

Em uma de suas célebres exposições, Eugênio Mussak comenta os três segmentos do cérebro humano, formados cada qual em épocas distintas e distantes – o reptiliano, mais antigo, responsável por funções básicas, como alimentação, reprodução e repouso; o sistema límbico, ligado às emoções, que surge bem depois; finalmente o córtex cerebral, novíssimo se comparado aos outros, que é nosso lado racional. Segundo o médico e professor, é possível observar a influência de cada um desses “cérebros” em nossa vida cotidiana, bem como uma certa predominância de um ou de outro em nossa conduta. Enfim, é sempre muito interessante a maneira como ele busca explicações para nossa realidade atual recorrendo à provável rotina de nossos antepassados.    

Impulsos de sobrevivência, bem como iniciativas de cooperação, camaradagem, visão e estratégia, afloram na história de Ernest Henry Shackleton, o irlandês que, no início do século XX, liderou três expedições à Antártica – assunto de um dos livros que Eugênio Mussak conta ter acabado de ler.

“Shackleton é um grande referencial. Na mais trágica de suas expedições, o barco fica aprisionado no gelo e não pode avançar nem recuar. Ele e a tripulação têm de esperar chegar o verão para sair dali, mas antes disso o frio aumenta terrivelmente. O gelo acaba comprimindo o barco e o arrebenta como a uma casca de noz. Eles então saem andando, demoram dois anos até conseguirem ser salvos.”  Para Mussak, Shackleton é o exemplo do líder bem-sucedido que não atingiu sua meta. “O objetivo era cruzar o continente antártico, o que ele não fez, ficou pelo caminho. Mas ele sabia que devia cuidar de sua equipe, portanto entrou para a história como um dos caras mais bem-sucedidos em liderança. Por quê? Porque ele soube mudar o foco. Em vez de alcançar o polo, o objetivo foi trocado por salvar todo mundo e voltar para casa. E isso ele conseguiu.”

 

Mas… o que é sabedoria?

“O animal satisfeito, quando dorme, se torna vulnerável.” A frase, lembrada por Eugênio Mussak, é de Guimarães Rosa. “Nós nunca podemos estar plenamente satisfeitos, temos de manter uma certa insatisfação, porque a satisfação plena nos põe à mercê de nossos inimigos. E, por vezes, esses inimigos podemos ser nós mesmos!” Para ele, a insatisfação nos permite sermos um pouco melhores. “Isso é a base, a essência do crescimento, da evolução e do desenvolvimento.”

Exemplos cotidianos, como o do clip que ninguém vê, acabam servindo para falar de sabedoria – outro tema recorrente em seus canais de comunicação e conferências. “Porque já não se trata apenas de adquirir conhecimento, mas sabedoria também.” Mas o que é sabedoria, na opinião do professor Mussak?  “Na verdade, eu não sei. Talvez, o mais próximo de uma compreensão possível do termo, no meu ponto de vista, é encontrar o equilíbrio, o caminho do meio entre fatos. Por exemplo, você tem de cuidar da sua vida profissional e também cuidar da sua vida pessoal. E você tem de cuidar do seu tempo, curtir, aproveitar intensamente este dia que está vivendo, sem descuidar do futuro. Porque o futuro virá – e será tão melhor ou tão pior quanto o que a gente fizer no presente.”

Ele observa que as empresas fazem isso, olhando para todos os aspectos ao mesmo tempo. “Ah – eles dizem –, o que a gente precisa é ter foco no futuro, na perpetuação, e a empresa tem que pagar as contas no final do mês, e terá foco no curto prazo e foco no longo prazo…” Para Eugênio Mussak, a sabedoria estaria aí. “O quanto eu posso exigir de uma pessoa, de um funcionário meu? Se eu for muito mole, ele se acomoda; se eu exigir demais, gero estresse, desgaste. Então, é crucial encontrar esse equilíbrio, o caminho do meio, de maneira a manter controle sob o presente e o futuro, sobre o pessoal e o particular, sobre ser bonzinho e ser justo. Bem, isso é absolutamente pessoal, não há um estudo em Harvard sobre o assunto.”