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Para montar na grana

Fera do mercado financeiro, autor de best-sellers e palestrante, Eduardo Moreira transforma conceitos complexos em ideias que crianças (e acredite: até cavalos) conseguem entender.

20/08/2018

Para montar na grana

Fera do mercado financeiro, autor de best-sellers e palestrante,

Eduardo Moreira transforma conceitos complexos em ideias que

crianças (e acredite: até cavalos) conseguem entender.

 

por Otávio Rodrigues

 

 

Como especialistas em finanças e investimentos, trabalhando junto a corretoras prestigiadas, eles movimentam milhões e mesmo bilhões de reais a cada dia. É de imaginar encontrá-los trabalhando em salas suntuosas, onde a espessura do carpete concorre com a dos vidros nas janelas – para não falar nas assinaturas das obras de arte na parede. Eduardo Moreira é um desses personagens bons em contrariar expectativas. Figurão no mercado de capitais, um dos fundadores de instituições financeiras importantes, como o Grupo Brasil Plural, atuante como assessor de investimentos de grandes fortunas, ele recebe a reportagem na sede de seus negócios, em São Paulo – um pequeno e despojado escritório na av. Juscelino Kubitschek.

Autor de vários livros, entre eles Investir é Para Todos e A Vida é Sua, Eduardo sai falando do mais recente, O Que os Donos do Poder Não Querem que Você Saiba, que teria sido motivo de polêmica. “Pessoas do mercado fizeram de tudo para que eu não o lançasse, mas na primeira semana já era o segundo livro mais vendido do Brasil.” E não demora a mostrar a foto em que aparece com a esposa ao lado da rainha Elizabeth II num dos salões íntimos do Palácio de Windsor – mas isso apenas porque Sua Alteza, assim como ele, é louca por cavalos. Ora, fazer o quê?

A propósito, sua vida vem mudando bastante desde que escreveu e lançou Encantadores de Vidas, em 2012, baseado justamente em conhecimentos que adquiriu na arte de adestramento de cavalos. Em resumo, ter um bicho desses era o hobby sonhado por um homem de negócios, só que virou um problema, porque ele começou comprando uma égua chucra na internet e, então, dessa encrenca acabou surgindo a atividade paralela de adestrador, da qual ele tirou ainda duas outras, com notável sucesso – a de autor e a de palestrante. Deu para entender?

Como dissemos, a contra-intuitividade acompanha os passos do engenheiro civil e economista Eduardo Moreira, que em nossa conversa conta alguns dos melhores momentos de sua bem-sucedida trajetória e, claro, dá dicas de como investir direitinho o patrimônio e garantir um futuro tranquilo – com boas notícias para quem gosta de pensar fora da caixa. Será que ele vai encantar você? Confira…!

 

* * *

 

A verdadeira independência financeira

“O que faço nos meus cursos é explicar para as pessoas como é que as coisas funcionam no mercado. Ensino que, mais importante do que procurar respostas corretas, é fazer as perguntas corretas. O que é esse investimento? Que risco tenho nele? O que quer dizer risco? Existem cinco tipos de riscos, pelo menos: risco de crédito, risco de liquidez, risco operacional, risco de mercado e risco de imagem. E assim, vamos avançando. Quando você aprende todas essas coisas, não precisa depender de ninguém para tomar decisões. O que é independência financeira? Ter dinheiro para não precisar trabalhar mais? Ora, independência financeira é não precisar de ninguém para dizer o que é certo fazer com seu dinheiro. Benjamin Franklin dizia que a riqueza só depende de duas coisas: trabalho e poupança. Você não fica rico no mercado financeiro. Certo, se os recursos são bem aplicados, o mercado financeiro funciona como um fermento para seu dinheiro, vai fazê-lo crescer mais rápido – a famosa bola de neve. Mas o que deixa você rico, mesmo, é o seu trabalho, o que você sabe fazer bem. Não importa sua profissão ou atividade, foque naquilo que sabe fazer bem, porque é daí que vem seu dinheiro. E esse dinheiro deverá ser juntado, ainda que seja pouco, mas que seja sempre.”

 

Fisgado pela Economia

“Os Edus. Foi com essa legenda que eu e dois xarás do curso de Engenharia Civil da PUC-Rio ficamos conhecidos nos anos 1990. Bons alunos, fazíamos tudo juntos, pegávamos onda, íamos nas festas… E então surgiu um programa de intercâmbio com a Universidade da Califórnia e foi um formigueiro, com estudantes de todas as áreas correndo para juntar documentos e fazer as provas – um ano com bolsa de estudos nos Estados Unidos, quem não quer? Eu achei impossível, não participei. Duas das oito vagas a serem preenchidas foram logo anunciadas: eram os outros dois Edus. Poxa, pensei, vou ficar sem meus melhores amigos… Corri na secretaria e, a muito custo, aceitaram minha inscrição, só que com um prazo absurdo para entrega da papelada e das provas. Bem, consegui fazer não sei como, fui aceito e parti para a Califórnia com meus amigos estudar Engenharia. E por lá, precisando escolher mais matérias para compor o currículo, incluí algumas aulas de Economia. E me apaixonei pelo negócio.”

 

A fórmula do milhão

“O que quer dizer patrimônio? A origem etimológica de pátria, algo que vem do parto, que vem do ventre. Pátria é tua nação, é quem te pariu. Então patrimônio é o que é deixado para os que vêm depois, aquilo que é passado de geração para geração. Bem, você pensa em patrimônio e no que tem de deixar para seus filhos, mas você não sabe se vai estar aqui. Por isso acho o seguro de vida importantíssimo, porque você pode garantir um patrimônio, mesmo que ainda não o tenha juntado, mesmo que não viva tempo suficiente para isso. Nos meus cursos eu brinco, dizendo: ‘Vou dar uma fórmula que, se vocês fizerem, eu garanto, vão conseguir juntar 1 milhão de reais. É matemático! Vocês só têm de juntar isso por um certo tempo, colocando em tal lugar e, eu garanto, vocês vão ficar milionários. Só tem um risco, que é o de vocês não viverem até lá… Mas estou aqui para resolver esse risco também, pois trouxe uma empresa de seguro de vida, por isso garanto que vocês vão ficar milionários, podem sair felizes deste curso…’ Parece brincadeira, mas é verdade, porque o seguro de vida cumpre um papel muito importante. Ele é um hedge financeiro, não uma aplicação financeira. É uma proteção. As pessoas que estão construindo um patrimônio deveriam ter um seguro de vida e ir juntando, trabalhando e juntando um pouquinho, sempre. Dessa maneira, com certeza, deixarão patrimônio para suas próximas gerações.”

 

Quem precisa de menos, guarda mais

“O que tenho de muito importante para dizer às famílias, primeiro: se vocês têm dívidas, tratem de liquidá-las negociando com o banco. Daí, juntar pouco, mas juntar sempre. E será preciso readequar as necessidades de vida, porque isso gera muita ansiedade – a sensação de incompletude, o eu-quero-isso, o eu-quero-aquilo… Por que você quer? Porque você se sente incompleto. Tudo que desejamos é algo que achamos que vai nos completar. E a gente está num mundo que bombardeia propagandas dizendo que só seremos completos quando tivermos o novo carro lançado, quando comermos um novo tipo de cereal, quando viajarmos para as ilhas do Caribe. E você vive buscando essa completude que nunca chega. Quando você tem um autoconhecimento maior, isso gera uma segurança maior, um amor próprio maior, uma sensação de completude. Quem se sente mais completo, precisa de menos; quem precisa de menos, consegue guardar mais; quem consegue guardar mais, rapidamente monta seu patrimônio.”

 

Seguindo as pegadas do dinheiro

“Engenheiro, filho de engenheiro, neto de engenheiro… Acho que isso acabou me ajudando em economia e finanças. Engenheiro é aquele cara que quer entender como tudo funciona. Alguém vai falando o problema e você vai anotando as variáveis, então desenha aquele problema, relaciona, faz setinhas… Foi assim que aprendi Economia. Então, não dá para imaginar um engenheiro ‘estragando’ dinheiro em ações. É assim: O que é uma ação? Como funciona? Mas, como é o caminho do dinheiro? Ele sai da mão da pessoa… e aí? Ah, certo, esse negócio já colocou o dinheiro no banco e pronto – mas, calma! Como e até onde foi o dinheiro? Essa nota que eu dei ficou guardada onde? Mergulhado nessas questões, criei uma carteira de investimentos virtual, onde fazia anotações como se estivesse comprando e vendendo de fato. Eu não dormia, tenso, porque algumas ações estavam caindo de preço – e eu nem as tinha, eram de mentira! De volta ao Brasil, trouxe um certificado com média 10 em todas as matérias de Economia, atestando que eu havia sido o melhor aluno da cadeira em quinze anos.”

 

A conta boa de fazer

“Não existe uma conta para quanto do patrimônio deve ser investido – como 5%, 10%, 15%, 20%… O que deve ser pensado é o seguinte: o que tenho hoje e com quanto dá para viver, levando uma vida que me deixa pleno? Aí, o que sobrar, você vai juntando. Não há uma regra de bolso, como a de juntar 20% do que se ganha. Ora, se a pessoa recebe um salário mínimo e falo para guardar 20%, ela vai viver como? De sopa de sapato? De outra maneira, se alguém fecha um super contrato e leva um dinheiro que nunca tinha ganhado na vida, tem 500 mil reais no bolso, e você fala para juntar 20%, ele pode perguntar: ‘Tem de gastar o restante?’ Portanto, não existe número certo. Mas tem as contas matemáticas, pois se você juntar um tanto por mês, terá um tanto bem maior lá na frente – uma conta que é legal as pessoas fazerem, porque se torna um motivador para a acumulação inteligente.”

 

Finanças para crianças

“Meu filho mais velho é muito matemático. Com 6 anos, perguntou o que era lucro, eu expliquei. Olha só, vamos supor que a gente vai fazer uma pulseirinha, que nem a que vocês fizeram na escola outro dia… O custo da corda que a gente vai comprar para fazer é 6 reais e, se você conseguir vender por 10 reais, vai sobrar quanto? Certo, isso mesmo! Esse é o seu lucro. Ele aprendeu e começou a falar naturalmente sobre lucro. Porque é tudo muito simples, mesmo. Você pega dois menininhos, uma dupla de rua que joga bola no farol para ganhar uns trocos dos passantes. Esses meninos costumam ganhar 80, 90 reais por dia cada um – e tem os que ganham até mais, 120, 150 reais. Se cada um deles, com 12 anos de idade, juntar 30 reais por dia a uma taxa de juros de 10%, em menos de 20 anos, sabe quanto terão? Um milhão de reais, sem correr qualquer risco. Trabalho e poupança.”

 

O mercado numa casca de noz

“No mercado financeiro só existem ações e títulos de dívida, só tem isso. Ou você é dono de uma empresa ou você emprestou dinheiro para uma empresa – acabou, mercado financeiro é isso. Juros é o seguinte: eu dou o dinheiro e você me devolve com um tanto a mais, porque você alugou o meu dinheiro por esse tempo. E porque você está pagando a mais? Porque durante esse tempo eu não pude usar o dinheiro, além do risco de você não me pagar de volta. Sabendo isso – o que é ação e o que é dívida – entendeu o mercado financeiro todo. Dá para ensinar esses conceitos básicos para uma criança.”

 

Encantando cavalos

Eu morava em São Paulo já havia mais de cinco anos e minha saudade do Rio só crescia. Saudade da família e dos amigos, mas também daquele contato gostoso que o carioca tem com a natureza. Resolvi comprar um sítio. E depois um cavalo, para me divertir nos finais de semana, mas não entendia nada e fui procurar ofertas na  internet. Pois bem, consegui ficar apenas dois segundos sobre a égua que aparecia anunciada como mansa, ótima de sela e ideal para crianças. Foi um rodeio. Lançado a alguns metros do chão, caí de costas em cima de umas pedras, quase perdi os movimentos do corpo. Durante a longa recuperação, ganhei de presente um livro sobre um certo “encantador de cavalos” que morava na Califórnia, um especialista que dava cursos para ensinar sua técnica de doma sem violência. Resolvi viajar até lá para conhecê-lo e, daí, surgiu uma das grandes amizades de minha vida. Voltei para o Brasil e passei a viajar ensinando essa técnica, que mostra como a vida e as relações podem ser mais belas e fortes quando eliminamos a violência. Passei a ser conhecido como “o encantador de cavalos brasileiro”, talvez um título injusto diante de meu amadorismo. Mas fazia tudo com enorme paixão. Em 2012, o trabalho me rendeu uma condecoração da Rainha Elizabeth II da Inglaterra, algo inédito para um brasileiro. E o livro contando todas essas experiências chegou ao topo da lista dos mais vendidos do país, um reconhecimento tão incrível que nem em sonho eu podia imaginar. E tudo começou com um tombo.

 

Entre o futuro e um Big Mac

“O cérebro é muito mais apto a gastar, porque é algo que se resolve a curto prazo. Somos biologicamente programados para resolver as coisas a curto prazo, não para pensar a longo prazo. Viemos das cavernas, quando tínhamos de resolver o problema do dia, mais nada. A agricultura surgiu há 7 mil anos e foi uma grande revolução, pois antes disso não se juntava planta, não se acumulava alimento. Quer dizer, o hominídeo existe há alguns milhões de anos, mas há apenas 7 mil passou a juntar coisas e a pensar em se proteger a longo prazo. Nosso cérebro ainda pensa em resolver o hoje. Com 10 reais na mão, a pessoa tem duas opções: guardar, porque um dia terá 1 milhão, ou comprar um Big Mac, que está cheirando gostoso bem ali na frente. O que ela faz? Corre para o Big Mac. É por isso que ter uma conta mostrando matematicamente que dá para você chegar em um milhão de reais pode fazer toda a diferença.”

 

O melhor dos mundos

“Meu mundo ideal é mais parecido com a Holanda, onde a pessoa mais rica pode ter 50 milhões de reais e a menos rica ter 50 mil reais. É mil vezes a diferença entre uma e outra, ou seja, tem bastante espaço para meritocracia. Veja, ninguém é mil vezes mais inteligente que outro, isso não existe! Pode ser 10 vezes mais capaz, tudo bem, mas não mil vezes. Portanto, estamos fazendo uma conta generosa. Assim, numa sociedade em que a pessoa tem 50 milhões de reais, ele continuará curtindo uma super lancha, um super carro e outros prazeres, enquanto a que tem 50 mil poderá criar bem os filhos, garantir escola e saúde, algum conforto e o que mais for preciso. Agora, uma sociedade em que alguém tem 5 bilhões de reais e o outro tem 50 reais, que é o que acontece, aí não dá…”