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Quem vai morrer está vivo

Naturalidade pode ser a saída para lidar melhor com a finitude – a nossa e a dos outros

13/12/2018

Quem vai morrer está vivo

Naturalidade pode ser a saída para lidar melhor

com a finitude – a nossa e a dos outros.

 

POR ANGÉLICA QUEIROZ

 

Ninguém sai daqui vivo. E não importa se na sua fantasia a morte é um anjo, uma luz que lhe atrai, se é do tipo que usa capa preta e foice ou se é mesmo um grande nada: precisamos apenas tratar do assunto com mais naturalidade. É consenso entre os estudiosos da tanatologia, ciência que investiga a morte, que assim teríamos uma sociedade melhor preparada para o luto, e portanto mais pessoas aptas a tomar decisões quando se aproxima a hora de ir embora. Na prática, contudo, a maioria de nós ainda não está nesse caminho. De modo geral, evitamos falar ou pensar na morte – até que ela invada a sala no meio do jantar, apareça no rosto contrito do médico no corredor do hospital ou nos acorde com um telefonema de madrugada. Ignorá-la não parece boa ideia.

 

Neste mês, conversamos com especialistas de nossa rede credenciada buscando uma compreensão mais ampla sobre esse fenômeno tão natural e, ao mesmo tempo, tão complexo. Nas linhas a seguir, esses profissionais, acostumados no trato com aqueles que estão partindo e, também, com os familiares que ficam, compartilham sabiamente as certezas e incertezas desse nosso destino comum. Boa leitura!

 

* * *

 

O impacto inicial

 

Conforme a geriatra Dra. Polianna Rodrigues de Souza, que trabalha com cuidados paliativos, um diagnóstico sem certeza de cura afeta as pessoas de maneira diferente. “Há as que aceitam de forma tranquila e as que se desesperam.” Um enfrentamento ruim, segundo ela, pode atrapalhar o tratamento, influenciando, por exemplo, em seus efeitos adversos. E mesmo que a gente associe a morte aos mais velhos, não são eles, necessariamente, os mais preparados. “Uma senhora de 89 anos me procurou, porque seu médico havia sugerido parar com o tratamento e ela estava triste, porque começara a pensar que podia morrer. Ora, ela já estava além da média de vida do brasileiro e nunca tinha refletido sobre a própria morte!”

 

Sem fingimento

 

“Para fazer um bom tratamento de uma doença não é necessário nem saber o nome do paciente, mas para uma boa atenção ao sofrimento, é.” É assim que o Dr. Daniel Forte, atual presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, explica a sua área de atuação. “O cuidado tem mais a ver com a biografia que com a biologia”, ele explica. Ainda que especialmente importante diante de um diagnóstico preocupante ou sem perspectivas, a relação desse tipo de assistência com a morte não é indissociável. “Estudos mostram que os cuidados paliativos podem, inclusive, prolongar a vida.” Mesmo para fazer um bom plano de cuidados paliativos, segundo ele, é preciso refletir sobre a morte. “Esse não deve ser visto como um assunto mórbido, mas uma oportunidade para repensar e viver melhor. Precisamos entender que a morte faz parte da vida; fazer de conta que ela não existe, só nos empobrece.”

 

Com a cabeça fora d´água

 

O Dr. Daniel Forte sentia um grande vazio ao aplicar seus conhecimentos técnicos para manter uma pessoa viva a qualquer custo. Mas, durante um curso na Europa, ele percebeu que não precisava ser assim. “Na natação a gente bota a cabeça dentro d’água e sai nadando; Na UTI,

 

entubamos e colocamos cateter. Na verdade, podemos parar antes e olhar para onde estamos indo.” Coordenador do Programa de Cuidados Paliativos do Hospital Sírio Libanês, há mais de uma década trabalhando com casos graves, o Dr. Daniel diz que nunca conheceu um paciente que não pensasse sobre a morte, mas que muitos ainda não estão prontos para falar sobre o assunto. “A informação é como um remédio: tem dose, forma e hora para ser administrada.” Enfim, existem técnicas para que o profissional consiga ser, ao mesmo tempo, empático e honesto. O conselho do especialista é que as famílias conversem sobre suas vontades, deixando claro se gostariam de ser reanimadas ou mantidas vivas artificialmente, por exemplo. “Não precisa esperar uma doença.”

 

Contra as estatísticas

 

A oncologista Dra. Nise Yamaguchi não gosta de trabalhar com estatísticas em seus diagnósticos, números que dizem o percentual de chance de cura. Para ela, é preciso sempre buscar o que é melhor para cada um. “Há tratamentos de ponta, alternativas à medicina convencional, perspectivas… Então, sempre acho que aquela pessoa que está na minha frente é a que vai conseguir ir além.” Embora assuste, um diagnóstico difícil nem sempre significa o fim da vida, afora poder servir para confrontar a pessoa com essa possibilidade e, nesse ponto, ser algo até positivo. “A possibilidade da morte é impactante, mas nos empurra para a vida. Pode ser um sinal para que a pessoa busque mais plenitude ou faça aquelas coisas que vem deixando para depois.” Não são raros os casos de quem sobrevive a um percalço desses e acaba mudando o rumo da vida para melhor – todos nós conhecemos uma história assim.

 

Um dia de cada vez

 

Especialista em casos difíceis, a Dra. Nise Yamaguchi acredita que cada um precisa encontrar os recursos internos para lidar com a situação – e ela faz questão de deixar a distância entre médico e paciente para lá.

 

“Eu me envolvo, sim, viro amiga profunda, construo uma relação de confiança e troca. Preciso saber quais são os valores pelos quais aquela pessoa se pauta, quais são suas buscas.” A oncologista conta que conviver com a morte a ensinou a não pensar se o paciente vai ter algum futuro, mas em dar a ele e à família um agora com qualidade de vida. “A gente estimula o hoje, porque é dele que depende o amanhã.” Quem caminha ao lado, claro, também precisa se empoderar para enfrentar todas as dificuldades. “Receber a família no consultório é bom para entender do que dependem os fortalecimentos daquele laço, aconteça o que acontecer. Todo mundo junto e tudo ao mesmo tempo.”

 

O assunto proibido

 

A geriatra e paliativista Dra. Polianna Rodrigues de Souza acredita que a comunicação clara, aberta e honesta a respeito da morte é sempre a ideal. “A pessoa tem o direito de organizar a vida, com relação à guarda dos filhos ou seja lá o que for importante para ela.” Além disso, durante um tratamento o paciente vai precisar de apoio; dividir esses momentos com a família ou pessoas mais próximas, além de reconfortante, pode ser bastante útil. Mas, muitas vezes, essa parte é mais difícil que o próprio diagnóstico. “O paciente quase sempre está mais preparado que a família.” Ela lembra que, mesmo entre pacientes lúcidos, orientados e autônomos, é comum a família saber antes e querer esconder a verdade, o que os especialistas chamam de cerco do silêncio. “Isso não deve acontecer. Essa postura atrapalha muito o relacionamento num momento em que precisa ser fortalecido.”

 

Morrer é um processo

 

Há quem diga que, quando a morte se aproxima, a pessoa sente. Para a geriatra Dra. Polianna Rodrigues de Souza a afirmação faz sentido. “Morrer é um processo. Vamos ficando progressivamente mais dependentes, mais quietos, perdemos o apetite.” A situação pode também nos colocar diante de caminhos alternativos, como o das terapias espirituais – algo que a Dra. não desestimula, desde que não interfira no tratamento. “Já tive paciente que não queria tomar analgésico porque acreditava que o sofrimento era importante. Aí fica complicado…”

 

As fases do luto

 

A dor da morte é inevitável, principalmente se a pessoa que parte é muito próxima, mas pode ser vivida com mais tranquilidade quando conhecemos seu processo. Para a psicóloga Dra. Claudia Finamore o luto se dá em fases que, não necessariamente nessa ordem, passam por negação, raiva, culpa, saudade e tristeza, até finalmente chegar na aceitação – isso sem falar no luto antecipado, que começa antes para quem acompanha de perto um doente terminal. E não adianta se ocupar com mil tarefas para não pensar no assunto: para a especialista, é muito importante vivenciar o sentimento, porque essa é a única forma de resolvê-lo. “O processo de luto saudável costuma ser longo e, mesmo que pareça insuportável, uma hora essa dor vai passar. Há alguns anos, perdi minha melhor amiga, mas trabalhei isso e agora apenas lembro com saudade.”

 

Quem tem medo do fim?

 

Além da dor da perda, o luto traz à tona nossa própria finitude. “Dificilmente alguém não tem medo de morrer, até porque a gente não sabe de verdade o que acontece – se é que acontece alguma coisa”, afirma a psicóloga Dra. Claudia Finamore. Ela acredita que essa dificuldade para lidar com a morte tem a ver com esse não saber. “Mesmo que a pessoa tenha alguma crença religiosa, é difícil ter certeza absoluta.” Mas a tranquilidade, segundo ela, costuma chegar. “Quem passa por um longo processo, vai se conformando e aceita.” E como mais dia, menos dia, precisaremos lidar com todas essas emoções, convém ainda observar a sábia perspectiva da psiquiatra suíça Elisabeth Kubler-Ross, que dedicou a vida ao estudo da morte. Ela gostava de chamar o momento da partida de formatura. “Pode ser a experiência mais deslumbrante de toda a sua vida. Depende de como você viveu.”

 

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SÁBIOS CONSELHOS

 

Uma seleta de ideias para tornar mais doces até os momentos mais difíceis.

 

Leve uma vida saudável

 

Praticar exercícios, ter uma alimentação balanceada e não fumar não nos torna imortais, mas nos ajuda a viver com mais qualidade.

 

Abra o leque

 

Meditação, mindfulness e yoga estão entre os aliados de tratamentos convencionais, melhoram a imunidade e diminuem o estresse.

 

Decida junto

 

Decisões compartilhadas com o paciente podem reduzir ansiedade, depressão e até os custos com o tratamento.

 

Faça as pazes

 

Resolver pendências pode nos ajudar a viver uma vida mais plena, o que tem se mostrado decisivo para ter tranquilidade na hora de partir.

 

Respeite o limite

 

O aparato técnico nem sempre é o melhor para todos os pacientes, assim como o excesso de medicalização pode tornar o processo mais penoso do que precisa ser.

 

Trabalhe o luto

 

O sentimento de perda não é fácil para ninguém, vem em fases, mas pode ser vivido de forma saudável e natural.

 

Escute e fale

 

Diante da morte e depois dela é difícil ouvir ou encontrar o que dizer. Mas todos podem acolher a própria dor e a do outro, sem julgamentos.

 

Estude o assunto

 

A consciência da morte é importante para nos ensinar a viver.