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Um país de outro mundo

A relação dos mexicanos com a morte fascina, ensina e nos faz refletir sobre a misteriosa viagem da vida.

08/01/2019

Um país de outro mundo

A relação dos mexicanos com a morte fascina, ensina

e nos faz refletir sobre a misteriosa viagem da vida.

 

Por Gabriela Aguerre

 

 

No México, as tradições e festividades do Día de Muertos inspiram uma visão mais suave, não por isso menos sentida, de como conviver com a perda dos seres queridos. Celebrar a morte, para os mexicanos, é algo não só possível como necessário. “O mexicano está familiarizado com a morte, brinca com ela, acaricia-a, dorme com ela, comemora-a”, escreveu o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz, Nobel de Literatura em 1990.

Você chega a qualquer cidade, grande ou pequena, entre os últimos dias de outubro e os primeiros de novembro e, de cara, se surpreende com a tranquilidade com que as pessoas vão se dirigindo aos cemitérios em peregrinações familiares serenas, levando enfeites, flores, velas, alimentos. Ao segui-las, respeitosamente, verá que cada túmulo vai ganhando suas ofertas. Biscoitinhos em forma de caveira, arroz-doce, doce de abóbora e pan de muerto, que é enfeitado de tranças simulando ossinhos e coberto de açúcar. Algo muito diferente, para nós, está sempre prestes a acontecer.

 

Rito perfumado

Haverá música, alegria, comida, bebida. Haverá tantas cores quanto as possíveis de enxergar, mas uma vai se destacar: o amarelo alaranjado das cempasúchil, um tipo de calêndula parecida ao cravo, endêmica do México. Mais de 15 toneladas são vendidas durante as festividades do Día de Muertos. Para os mexicanos, essa flor representa a própria morte, em uma crença que vem desde o tempo dos mexicas (ou astecas), o grupo mais poderoso da Mesoamérica antes da chegada dos espanhóis.

Segundo a lenda, Tonatiuh, o Rei-Sol, aceitou transformar a jovem Xóchitl nessa flor para reuni-la ao seu amado, Huitzilin, que morrera na guerra. Desde então, acredita-se que o perfume da cempasúchil ajude as almas a se reencontrarem com seus queridos aqui na terra. As pétalas servem também para decorar a entrada de casa e torná-la bem visível aos visitantes do outro mundo. Não por outra razão as moradas, não importando tamanho ou imponência, são decoradas com bandeirinhas coloridas e outras oferendas penduradas nos telhados – tudo para ilustrar o caminho das almas. Ouvem-se as crianças saindo pelas ruas e cantando: “La calavera tiene hambre. ¿No hay un pancito por ahí?”

 

Uma viagem incomum

De todos os traços dessa forma de enxergar a morte, talvez o mais bonito seja este: quem morre está apenas iniciando uma viagem, imaginada com requintes e até algumas exigências concretas pelas culturas pré-hispânicas.

Para empreender essa jornada pelo inframundo, como é chamado o reino dos mortos, são necessários utensílios, ferramentas e alimentos. Resta a nós providenciá-los ao longo da vida, em gestos de carinho e intenções de auxílio. Segundo a tradição, essa viagem perdura por quatro anos e encontra paradas e desafios diferentes, conforme a circunstância da partida dos falecidos. Os que se foram de causas naturais vão para Mictlán, nono e último nível do inframundo. Aqueles que morrem em guerras ou durante trabalho de parto, seguem para Tonatiuhichán. Tlalocán é o destino de quem morre devido a doenças ou atingido por raios. Crianças que ainda “não provaram do milho”, ou seja, ainda estão na fase lactante, seguem para Tonacacuauhtitlán, onde são alimentadas por uma árvore até poderem reencarnar.

Sem nenhuma conotação de céu ou inferno, como sugere a tradição cristã, essa forma de enxergar a jornada originou celebrações específicas a depender da idade e da causa da morte da pessoa. A premissa é que as almas visitam seus queridos seguindo uma certa ordem. Começa no dia 28 de outubro, com os ritos aos que se foram em acidente, depois aos afogados, aos órfãos, aos solitários, às crianças e, finalmente, em 2 de novembro, aos adultos (cada região do México, no entanto, tem sequências diferentes, evocando algumas peculiaridades de origem milenar).

 

Caveira de saiote

Quem visitar o fascinante Museo de Antropologia (www.mna.inah.gob.mx), dentro do Parque Chapultepec, na Cidade do México, terá de preparar o espírito para experiências singulares: já no átrio principal, ao centro, irrompe uma imensa cascata em forma de coluna, conhecida como El Paraguas (O Guarda-chuva) – choque inicial de um périplo em outros tempos, garantido pelos cerca de 600 mil objetos datados do século 6 a.C ao século 16 que compõem o acervo do museu. Entre eles, chama a atenção um calendário da cultura mexica, constituído por 18 meses e que tem engastadas na rocha marcações de pelo menos seis festividades dedicadas aos mortos.

A caveira é recorrente, surge como motivo de decoração em toda banquinha, fachada, no artesanato, nas igrejas, não só durante o Día de Muertos, mas ao longo do ano inteiro. E pode aparecer vestida com chapéu de plumas, saiotes e mangas bufantes. Para os antigos mexicas, o esqueleto é onde reside a imortalidade. Tão forte é essa acepção, que a imagem que representa Mictlantecuhtli, senhor do reino dos mortos e governante de Mictlán, camada mais profunda do inframundo, ora é a de uma pessoa que veste uma caveira, ora é a própria caveira.

Já a figura femininilizada do esqueleto surgiu há pouco mais que um século, nas mãos do caricaturista José Guadalupe Posada. No início, a “Calavera Garbancera” zombava de indígenas enriquecidos que deixavam de lado seus costumes e origens. A partir de 1947, com o quadro-mural Sonho de uma Tarde Dominical na Alameda Central, de Diego Rivera, a personagem ganhou cores e fama. Nessa obra, o artista a dispôs em posição central, vestida com trajes de madame, exibindo um sorriso irônico e de mãos dadas com Frida Kahlo. “La Catrina”, como passou a ser chamada, acabou virando um dos maiores símbolos do Día de Muertos por todo o país.

 

Para colorir a vida  

Além das celebrações nos cemitérios e dos altares dispostos nas casas, por todo o país há procissões, feiras, danças e alegorias. A maior delas ocorre, claro, na Cidade do México, antiga Teotihuacán, centro do antigo mundo mexica. Os desfiles costumam começar no Paseo de la Reforma, seguir pela Avenida Juárez até chegar ao Zócalo, coração do centro histórico. Mais de 1 milhão de pessoas vão às ruas, muitas fantasiadas ou pelo menos com o rosto pintado, geralmente imitando a Catrina. Na cidade de Aguascalientes, berço do caricaturista Posada, ocorre um gigantesco festival dedicado à dama da morte. São dez dias de paradas, desfiles, shows, em um total de 180 atividades. No conjunto, as celebrações do Día de Muertos são há mais de dez anos consideradas patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Unesco.

A cidade de Oaxaca tem sua tradicional Plaza de Muertos, uma feira onde se encontram todos os objetos para compor os altares, que também são cercados de simbologias. Alguns podem ter até sete níveis, pelos quais se dispõem diferentes objetos, a depender da vida da pessoa que partiu. Na versão mais simples, um altar de dois andares representa o céu e a terra. No de três, inclui-se o inframundo. Com curiosidade, você poderá perguntar o que significa cada coisa, cada gesto, cada reza. Ouvirá explicações que por vezes soarão naturais, por vezes sobrenaturais ou poéticas. Aprenderá que o momento de encontro com as almas dos que partiram pode preencher a falta e colorir a vida. Voltará com algumas pétalas de cempasúchil espalhadas nas roupas dentro da mala.