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Viagens de corpo e alma

Na velocidade das próprias pernas, temos a chance de fazer jornadas tão voltadas para fora quanto para dentro.

21/01/2019

Por Gabriela Aguerre

 

A paisagem se modifica dependendo de como a percebemos. Aqui mesmo, onde moramos. Se seguimos o mesmo caminho sempre, mal notamos o que está ao redor. Com pressa, então… Ao passar de carro pela mesma avenida, todos os dias, tendemos a não perceber as casas, as cores, as formas – para não falar das outras pessoas que também estão passando ali. Tudo muda quando decidimos observar o entorno, conscientemente. E tem a ver com a velocidade: tudo muda quando desaceleramos e nos guiamos pelo ritmo do corpo, nosso veículo primordial. Arrastados por esteiras mecânicas, alçados aos ares por aviões, impulsionados por trens, ônibus, tuk-tuks, flutuando sobre balsas ou navios, podemos dar a volta ao mundo cem vezes. Sim, a sensação de que não é preciso fazer nada para estar em trânsito pode ser sedutora. Mas a ideia do corpo em movimento, passo por passo, pode resultar em viagens inéditas, mesmo quando voltamos a um conhecido destino.

 

Desfile em slow motion

 

Uma forma muito prazerosa de conhecer a cidade de Montevidéu, por exemplo, é caminhando pela rambla, a avenida que margeia o Rio da Prata ao longo de 24 quilômetros, do bairro de Carrasco ao centro antigo, a Ciudad Vieja. De uma ponta a outra, a passos rápidos e sem pausas, são mais de quatro horas – coisa que se imagina para esportistas de fato ou notáveis caminhadores, mas que quase todo mundo pode considerar. De um lado o rio sem fim, que os uruguaios chamam de mar; de outro, como alas de um desfile em slow motion, vão passando os barquinhos do Puerto del Buceo, as pescaderias, os prédios altos e chiques de Pocitos, as colinas verdes do Parque Golf, os brinquedos antigos do Parque Rodó, as árvores centenárias, o antigo gasômetro, os pescadores do Barrio Sur… E se for para seguir a liturgia local nessas jornadas, leve cuia e mate em vez de água.

 

Um caminho de dois andares

 

Outras cidades têm passeios ou calçadões como o de Montevidéu, lugares que nos inspiram a esquecer do carro ou recusar um tour de van. Havana e seu Malecón; Barcelona e suas ramblas, no plural; a Cidade do Cabo e seu Waterfront… Uma boa estratégia, seja em que destino for, é chegar e logo querer saber: onde vocês caminham por aqui? Se você estiver em Nova York, obterá muitas respostas. Andar é um verbo imperativo em uma cidade plana, onde cada esquina é uma atração. No caso do High Line, a antiga via férrea transformada em parque suspenso, o trajeto tem opções: percorrer seus 2,5 quilômetros lá em cima, a oito metros do chão, entre recantos verdes, deliciosas espreguiçadeiras, obras de arte e áreas de piquenique, ou aqui embaixo, cruzando os bairros de Meatpacking, West Chelsea e Hell’s Kitchen/Clinton. Desde que o High Line foi inaugurado, em 2009, essas áreas vêm atraindo galerias de arte, estúdios de design, lojas, museus e restaurantes a quarteirões onde antes havia fábricas, galpões e empresas de transporte. Escadas em locais estratégicos permitem alternar entre os dois níveis, tornando a jornada ainda mais ativa e interessante.

 

 

 

 

 

A Rambla Mahatma Gandhi, em Montevidéu, no bairro de Punta Carretas.
© Felipe Restrepo Acosta/Wikimedia

 

 

O parque linear High Line, em Nova York.
© Mike Peel (www.mikepeel.net)

 

Viagem interior

Atitude saudável e transformadora, caminhar viajando (ou viajar caminhando) também já inspirou grandes narrativas. Em 1336, o poeta e pensador italiano Francisco Petrarca, um dos fundadores do Humanismo, viveu uma experiência singular. No século 14, quando poucos se arriscavam no inóspito e misterioso das montanhas, A Subida ao Monte Ventoso foi o primeiro texto conhecido pelo Ocidente sobre uma viagem que continha, para além da descrição de novos lugares, um relato impressionista, ou seja, os comentários e conversas internas do autor. A subida a uma pequena montanha na Provence, o tal do Monte Ventoso, resultou em um texto pontuado por pensamentos e descobertas – inspirações, por assim dizer. O trajeto simples bem poderia estar num folheto turístico de agora: passeio de um dia a partir de Malaucena até o topo da colina com retorno à cidade ao cair da tarde. E o que Petrarca fez é considerado um marco na literatura de viagem. “Hoje, movido apenas pelo desejo de ver um lugar famoso pela sua altitude, subi ao monte mais alto desta região que não sem razão chamam ‘Ventoso’”, ele escreve no início do relato, para depois nos levar a camadas mais profundas, que passam pela descrição do caminho e seus percalços, claro, mas também nos põem imersos nas epifanias da partida, da chegada e do retorno. “E parecia-me ter esquecido de algum modo o lugar onde me encontrava e o motivo pelo qual ali tinha ido, até que, abandonando estas tarefas que seriam mais oportunas para outro lugar, me voltei para trás, para Ocidente, para olhar em volta e ver aquilo que tinha vindo ver”. Sem saber, o poeta italiano inaugurou um tipo de texto que inspira viagens tão voltadas para fora quanto para dentro.

Paisagem típica da Provence, com o Monte Ventoso ao fundo.
© Robert Brink

 

A rua mais caminhável do mundo

Algumas cidades fazem questão de abrir mão dos carros para criar ambientes mais saudáveis, menos poluídos e mais amigáveis para pedestres e ciclistas. É o caso de Copenhagen e sua Strøget, uma rua de exatos 1.111 metros de extensão, portanto a mais extensa via urbana do tipo em toda a Europa. É um aprazível passeio sem obstáculos, em que locais e turistas podem transitar livremente, sem se preocupar com semáforos, observando apenas o movimento, as fachadas, os sons e as luzes nas lojas e cafés. Enfim, podem olhar em volta e ver aquilo que foram ver.

Strøget, rua em Copenhagen, Dinamarca.
© Olga Itenberg/Wikimedia

 

Uma surpresa a cada metro

Só mesmo com as próprias pernas se pode adentrar um dos mais intrincados destinos do Marrocos, a Medina de Fez. O maior centro histórico amuralhado do mundo árabe é também uma das maiores zonas urbanas livres de carros do mundo, um universo de ruelas, largos e praças, travessinhas e ligações que parece implorar a comparação com um labirinto. Para avançar sem se perder é preciso seguir confiante os passos de um guia local, caminhando sem pressa e dando espaço para as mulas e suas cargas, que têm primazia na passagem. O guia vai mostrar, orgulhoso, a arquitetura das muitas mesquitas, a Fonte Nejjarine, vai falar do legado da Universidade de Al Karaouiyne. Pode-se andar um dia inteiro por esse conjunto milenar com a certeza de que haverá uma surpresa a cada metro – do doce perfume das tâmaras à atmosfera acre dos curtumes, da sensação ao deslizar a ponta dos dedos nos tecidos e tapetes ao impacto de atravessar uma portinhola, ao final de um beco, e ver-se num palácio.

Visão panorâmica da Medina de Fez, no Marrocos.
© Alina Chan/Wikimedia

 

A porta de Bab al-Amer, em Fez, no Marrocos.
© Bernard Gagnon/Wikimedia

 

Nossos passos sobre o planeta

E será usando as próprias pernas e percepções, com suor no rosto, que cada um terá como descobrir Veneza, a Cidade Velha de Dubrovnik, a estação de inverno de Zermatt, as areias de Morro de São Paulo ou da Ilha de Paquetá. Caminhar, tanto como correr, é atividade física que envolve todo o organismo, sabemos, mas sobretudo compromete a atenção, promovendo um estado em que corpo e mente se alinham e conversam. Tich Nhat Hanh, mestre do zen budismo, tem entre o puro ouro de suas obras um livrinho chamado Meditação Andando. Nele, professa a ideia de que a coisa mais preciosa que podemos fazer na vida é, simplesmente, dar passos sobre nosso planeta. Para o monge vietnamita, nenhuma boa ideia de verdade pode surgir, a não ser quando estamos caminhando.

Vista de Veneza a partir do Palácio do Doge.
© Peter K Burian