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Você numa Ferrari

Como sair por aí num carrão – e outras ideias de André Massaro, o investidor que faz sucesso como educador financeiro tornando simples (e divertidas) até as questões mais complexas.

04/12/2018

Você numa Ferrari

Como sair por aí num carrão – e outras ideias

de André Massaro, o investidor que faz sucesso como

educador financeiro tornando simples

(e divertidas) até as questões mais complexas.

 

Por Otávio Rodrigues

 

Do alto de seus quase dois metros de altura, em boa forma, André Massaro vai contando que sempre foi estudioso, mas pouco disciplinado. “Eu era gordo, gordo pra caramba, um negócio gigantesco.” Acrescenta que não tem se exercitado muito, agora, por conta de uma cirurgia. “A recuperação me fez ficar um tempo parado e comendo… Tenho um problema com o pó branco: como açúcar em quantidades industriais!”

Graduado em Administração pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), com especialização em Finanças, pós-graduação em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), André trabalhou em um escritório de consultoria, em um banco e, mais tarde, em uma empresa não-financeira, como gestor nessa área. A primeira virada veio quando se tornou um investidor profissional, se dedicando a operações especulativas na bolsa de valores com capital próprio – nas palavras dele, um período de estresse absurdo. “Eu estava vivendo uma vida completamente disfuncional, preso dentro de casa. Passava dias praticamente sem contato com algum ser humano. Acordava, ia para a frente do computador, terminava, dormia – só falava com os outros pela internet.”

A situação o levou à virada seguinte, ocorrida há dez anos. “Resolvi entrar na educação financeira porque precisava ter uma vida divergente.” Suas credenciais no clube foram apresentadas em um primeiro livro, Money Fit. “Era aquela coisa, o gordo tentando botar ordem na vida”, conta ele, lembrando que não tinha nome nem apadrinhamento, só enviou os originais para as editoras para ver o que acontecia. “Um dia, alguém apareceu: ‘Vamos publicar!’ Não foi um mega best-seller, mas me colocou no circuito e jornalistas passaram a me procurar como fonte.” Bem humorado, não atribui sua onipresença na mídia, necessariamente, a suas competências. “Faço sucesso com jornalistas por ser, talvez, o único cara na face do planeta que cumpre prazos. Se digo que vou ligar em 15 minutos, eu ligo.”

Dono de um blog no portal Exame há oito anos, colunista da rádio Jovem Pan e à frente de uma empresa de cursos online voltados para investidores e profissionais de finanças, André Massaro conversa com a gente sobre finanças, investimentos e seguro de vida, sem esconder sua estratégia para a independência financeira: “Viver simples, ser independente e ter múltiplas fontes de renda.” Confira!

 

Você vem praticando algum esporte?

Faço musculação. Não gosto de esporte, nunca gostei, especialmente esporte competitivo. Não sei nem que ganhou a última copa do mundo, abomino esse tipo de assunto. Não vejo jogos, fórmula 1, nada. Faz parte da minha personalidade.

 

Isso é bom ou ruim?

Em determinado momento, há poucos anos, me assumi como uma pessoa não competitiva. Não gosto de competir. O problema de você competir é que você se torna reativo. Quem compete, se mede por uma régua alheia, em termos relativos.

 

Como assim?

Às vezes, temos pessoas com projetos, desejos, sonhos, que querem enriquecer, conquistar a independência financeira, trabalhar etc., mas que têm dificuldade para entender a diferença entre relativo e absoluto. Então eu pergunto: O que você quer da vida? Qual é sua ideia de riqueza?

 

As pessoas sabem responder?

O cara diz, sei lá: “Minha ideia de riqueza é ganhar vinte paus por mês de renda passiva, sem ter que trabalhar”. Beleza, eu digo. Significa que, talvez seu vizinho ou seu cunhado esteja ganhando 30 paus. Você vai ficar tranquilo com isso? Se a pessoa diz: “F*-se!”, ela não está competindo. Quer dizer, está competindo com ela mesma, não com um terceiro.

 

Há risco em competir com os outros?

Muitas pessoas quebram ou se arrebentam financeiramente, às vezes sem perceber, porque estão competindo. Elas ficam reativas e acham que têm que comprar um carro novo porque o parente comprou, ou têm que ir para não sei onde porque a vizinha foi. Num contexto financeiro, especialmente de finanças pessoais, a competitividade nem sempre é uma coisa positiva. Aliás, eu arriscaria dizer que não é, na maioria das vezes.

 

Qual a importância do seguro de vida em um planejamento financeiro?

A vida é nosso ativo mais importante. Para que serve um seguro? Principalmente, como forma reativa de gerenciamento de risco, que a gente pode dividir em duas vertentes. Uma é a forma preventiva, que é ir ao médico ou não ir na festa do Palmeiras com a camisa do Corinthians, essas coisas, para evitar que o risco se torne fatal. Já o seguro é uma medida de gerenciamento de risco pós-fato. No momento em que o risco virar fato, você tem o seguro para te ajudar. Por isso, idealmente, os seguros são usados para coisas de alto valor, como nossa casa, um carro ou a própria saúde, que são itens que não se consegue repor. Hoje, se você ficar uma semana na UTI, perde um imóvel – um risco grande demais.

 

Sem falar nas necessidades da família.

Sim, às vezes a pessoa não construiu um patrimônio, não conseguiu parar em pé financeiramente, e tem os que dependem dela para manter um padrão de vida. Então, é fundamental um seguro de vida para que esses terceiros envolvidos tenham, ao menos, um fôlego até que consigam parar em pé sozinhos.

 

Como determinar o valor desse seguro?

Tem gente que pensa que, se não puder dar um seguro de dez milhões para a família, é melhor não dar nada, como se a família fosse uma coisa estática – e não é. A gente usa seguro para os nossos artigos de alto valor, e o artigo de mais alto valor que a gente tem é a gente mesmo.

 

E sabemos como a história acaba…

O seguro de vida tem essa característica interessante: o risco vai acontecer inevitavelmente, porque todo mundo vai morrer. Não necessariamente a casa vai ser danificada ou o carro vai ser roubado, mas é líquido e certo que a pessoa morre. Então, quanto mais próximo do evento, de o risco virar fato, mais caro vai ficar.

 

O que você recomenda para alguém sem herdeiros?

Nesse caso, o seguro de vida pode ser interessante para si próprio, para eventos em que se perde a capacidade de gerar renda. Fica um seguro um pouco mais ilimitado e, inclusive, mais barato, porque você não tem o ônus de deixar alguém com a vida resolvida.

 

Que razões tem uma pessoa com grande patrimônio para fazer um seguro de vida?

Ela pode querer fazer por motivos como, por exemplo, o planejamento sucessório, já que é um dinheiro não inventariável. Enfim, há várias estratégias financeiras em que o seguro de vida se encaixa, não necessariamente porque a pessoa tem descendentes ou está precisando de dinheiro.

 

Por que o seguro de vida no Brasil ainda é rotulado como produto de morte?

O brasileiro e o latino, em geral, têm como característica cultural ser um povo místico, acha que é protegido por uma força superior e que coisa ruim só acontece com os outros. Então, tem resistência ao assunto, parte do princípio de que não acontecerá com ele.

 

Como é essa cultura lá fora?

Nos países anglo-saxônicos, em particular nos Estados Unidos, essa cultura de seguro é mais forte. Nos Estados Unidos não existe saúde pública como a gente conhece aqui – e é cara. Se não tiver um seguro de saúde, já era.

 

Não faltam narrativas a esse respeito.   

Lá, eles tem coisas que beiram a desumanidade. Você entra baleado num hospital e já tem que assinar um cheque, não há o sentimentalismo que a gente tem aqui. Eu diria que o americano, talvez por conta do estado menos paternalista, é levado a segurar seus bens, a fazer um seguro de saúde. Não tem governo cuidando.

 

Que estratégia você julga adequada para abordar o seguro de vida como planejamento financeiro?

A gente pode apelar para o vernáculo shakespeariano: shit happens. E, às vezes, algumas famílias ou indivíduos não têm fôlego financeiro para se expor ao risco. O seguro, então, precisa fazer parte da estratégia, porque de outra forma essas pessoas não conseguem diluir o evento ruim naquilo [recursos] que possuem. Ou seja, a pessoa acaba se tornando “seguradora” de si mesma – e é fácil imaginar a altíssima concentração de risco de uma seguradora que só tem um cliente.

 

Como definir o seguro ideal para cada pessoa?

São vários fatores e um deles é o patrimônio pessoal. Pessoas que têm um patrimônio grande precisam de uma cobertura menor, provavelmente só para o primeiro momento, como as despesas de inventário. Pessoas com menos patrimônio precisam de uma cobertura maior, assim como as pessoas com filhos pequenos. Uma família que não tem patrimônio e tem filhos pequenos precisa se virar, criar maneiras de fazer dinheiro, porque precisa pagar um seguro de vida. Pessoas com filhos já crescidos talvez não precisem de cobertura alguma. O grau de autonomia financeira e a reserva financeira, portanto, são determinantes.

 

Como ordena seu planejamento?

Não tenho seguro de vida, mas tenho seguro de patrimônio e plano de saúde. Não tenho descendentes e trabalho em casa, basicamente, desenvolvendo cursos pela internet. Não tenho emprego, tenho autonomia e flexibilidade de tempo e faço um trabalho essencialmente intelectual. Meu risco é relativamente baixo, não dependo do mercado de trabalho, não tenho um patrão que um dia vai acordar de mau humor e me mandar embora. Além disso, tenho um estilo de vida muito abaixo da minha verdadeira possibilidade, o que faz parte de um planejamento financeiro.

 

Como assim?

Eu acho que a primeira linha de defesa nas finanças é viver simples. Já passei por um processo mental de tentar definir o que é importante para mim e o que é importante para os outros. Se eu quiser um carrão, eu terei um carrão – mas eu tenho de estar convencido de que quero. Quando olho um carro, sempre procuro analisar criticamente para ver se eu quero porque quero, ou porque alguém falou que é legal, ou porque vi em algum filme…

 

E não faltam apelos no cinema, na publicidade…

Eu tive uma epifania, comecei a entrar em sites de locadoras de carros exóticos e vi que posso alugar uma Ferrari por três dias. Custa caro, mas está ao alcance da maioria das pessoas de classe média. Aí, você pode andar até encher o saco, vai se divertir e pronto. Isso é uma libertação pessoal que não tem tamanho.

 

Alugar é uma boa?

Trocar a propriedade pela experiência é uma tendência no mundo das finanças pessoais. Este apartamento é meu porque herdei – eu não teria comprado. Gosto de aluguel, acho o melhor negócio do mundo, porque se eu ficar de saco cheio vou embora. Os planejadores financeiros dos Estados Unidos usam um ditado que eles chamam de regra dos 3 F’s: “If it floats, flies or fucks, it’s better to rent.”

 

Vou lhe fazer aquela pergunta: qual é sua ideia de riqueza?

Acho importante ter um patrimônio que me permita viver sem trabalhar, de preferência por tempo indeterminado, até porque não sei quanto tempo vou viver – quem sabe serão 200 anos, pode surgir uma tecnologia maluca regenerativa.

 

Isso não amplia demais o horizonte?

A melhor estratégia é assumir ser imortal, por isso é preciso ter um patrimônio. E não fazer aquela conta do que é suficiente – não é. Os pilares são: viver simples, ser independente, ter múltiplas fontes de renda.

 

Quanto mais rico, melhor?

Mais importante do que riqueza é liberdade. Se a liberdade financeira leva à liberdade pessoal, ótimo.

 

Você sempre teve facilidade para fazer contas?

Tenho enorme dificuldade para fazer contas. Eu escrevo muito melhor do que faço contas. Ainda não me sinto no total domínio do lado quantitativo das finanças.

 

Como explica seu sucesso na área da educação financeira?

Acho que vem, exatamente, do fato de eu conseguir transpor conceitos quantitativos para narrativas. Faço isso porque tenho que fazer para mim mesmo, senão não entendo. Nesse ponto, sou quase que um disléxico.

 

Como é esse processo?

Tenho que criar uma historinha para ensinar a mim mesmo. Aí, penso assim: “Se eu, que sou muito burro, consegui entender isso, acho que as outras pessoas vão conseguir entender também.” E tem dado certo, estou indo para o quinto livro – acabei de fechar contrato, deve sair no ano que vem.