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Ar, doce ar

Especialistas explicam a importância de se respirar da maneira correta e o que podemos fazer para cuidar melhor de nossas vias aéreas.

20/08/2018

Ar, doce ar

Especialistas explicam a importância

de se respirar da maneira correta e o que

podemos fazer para cuidar melhor

de nossas vias aéreas.

 

por Angélica Queiroz

 

Uma pesquisa feita pela Universidade de São Paulo (USP) sugere que respirar o ar da capital paulista por duas horas no trânsito equivale a fumar um cigarro por dia. E o problema não está só nas grandes cidades nem só no Brasil. Estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que mais de 90% dos seres humanos respiram ar poluído, isto porque a taxa também é alta nas áreas rurais, onde é comum a queima de combustíveis sólidos em ambientes fechados.

Tudo bem, sabemos que novas fontes de energia prometem um mundo menos tóxico, mas até lá continuaremos sujeitos aos efeitos da poluição atmosférica – algo tão certo quanto a doce chegada do outono e do inverno, com céu azul e nuvens branquinhas, mas também o frio e a baixa umidade que tanto irritam as vias aéreas. Pensando em tudo isso, no mês dedicado ao “Respirar”, fomos ouvir médicos e especialistas da rede credenciada para tentar entender melhor esse impulso involuntário e vital. O que fazer (e o que não fazer) para que o ar, simplesmente, entre e saia do organismo da forma mais saudável? Respire fundo e boa leitura.

 

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O peão do xadrez

Tente respirar somente pela boca por alguns segundos e logo perceberá que o corpo não considera essa a maneira ideal para realizar a troca dos gases entre o organismo e o meio ambiente. OK, durante atividades físicas o corpo necessita de mais oxigênio e respirar pela boca pode ser algo necessário e até automático. Mas, sim, existe um jeito certo de respirar, que é inspirando e expirando pelo nariz, como já diziam nossas avós. A respiração nasal funciona como um filtro, impedindo que impurezas cheguem ao organismo. Além disso, respirar pelo nariz mantém as defesas naturais como o muco nasal e os micro-cílios, que nos protegem de resfriados e sinusites. “É nossa primeira defesa”, explica a pneumologista dra. Maria Laura Sandeville. “Na comparação com o jogo de xadrez, o nariz atua como os peões.”

 

Dando a volta na gripe

A pneumologista dra. Maria Laura Sandeville destaca que a vacina contra a gripe é um cuidado importante. Quando começa o outono, há maior facilidade de infecção pelo vírus porque, além de irritar as vias aéreas, o clima frio faz com que adotemos hábitos de risco, como preferir ambientes fechados. Segundo ela, mesmo não sendo obrigatória para todas as faixas etárias, a vacinação anual é sempre recomendável, por conta das mutações do vírus. “De resto, o bom senso – como estar sempre bem agasalhado.”

 

Modas perigosas

Os problemas de fumar não são apenas de longo prazo. Basta uma baforada para que a integridade do aparelho respiratório seja comprometida por uma reação inflamatória causada pela alta temperatura da fumaça – o reflexo de tosse que acompanha as tragadas dos principiantes demonstra isso. E a depender da opinião médica, não escapam os cigarros eletrônicos ou de palha – ambos na moda entre os jovens. “O cigarro de palha é o mais grosseiro e, por isso, extremamente prejudicial. Os cigarros eletrônicos, mesmo sem nicotina, também afetam a saúde pulmonar, porque não se trata da única substância tóxica e, enfim, qualquer tipo de fumaça afeta o pulmão”, observa a pneumologista dra. Maria Laura Sandeville. “Outro problema é que, como os cigarros eletrônicos têm menos nicotina, muita gente acaba fumando mais.”

 

Fumaça no parque

Segundo levantamento recente publicado no jornal O Estado de São Paulo, nem mesmo redutos naturais escapam da poluição paulistana. O parque do Ibirapuera, por exemplo, aparece no topo das regiões com maior concentração de ozônio na cidade – gás que, em contato com o organismo, reage principalmente com a mucosa que reveste as vias respiratórias, oxidando-as e diminuindo as defesas contra infecções. “Agentes da poluição agem como irritantes da via aérea. Mas podemos tomar alguns cuidados, evitando exposição a agentes agressivos como poeira e, se possível, não sair nos horários de pico de trânsito ou de manhã cedo, quando a junção do frio com a poluição nessa época do ano pode se tornar ainda mais prejudicial”, orienta a pneumologista dra. Maria Laura Sandeville.

 

Como vão suas trocas gasosas?

Para o fonoaudiólogo e otorrinolaringologista dr. Bruno Rossini, respirar bem é apresentar inspiração e expiração confortáveis pelo nariz, sem a percepção de obstrução ou dificuldade na região nasal, na garganta e no pulmão. “A respiração nasal é muito importante. Com ela, além de conseguirmos condicionar o ar, preparamos o pulmão para recebê-lo através de um reflexo chamado naso-alveolar, que consiste em filtração, aquecimento e umidificação. Assim, o ar se torna mais adequado para chegar aos pulmões e realizar as trocas gasosas necessárias.” Bem, levamos alguns milhares de anos para desenvolver esse sistema eficiente, em que tudo está interligado, portanto sabemos como uma obstrução nasal pode ser desconfortável. Nessas horas, precisamos fazer um esforço maior para respirar, o que pode interferir em nossa qualidade de vida – o ronco e a apneia do sono são bons exemplos. “Quando o nariz é obstruído de forma crônica, muitas vezes ocorre a diminuição do olfato, que pode levar a uma diminuição secundária do paladar”, afirma o dr. Rossini. “Esses sentidos estão intimamente correlacionados.”

 

O básico para o inverno

Qual a relação do clima com os problemas respiratórios? O dr. Bruno Rossini, fonoaudiólogo e otorrinolaringologista, explica que sempre ocorrem dias com baixa umidade do ar e alta concentração de poluentes no inverno – principalmente nas grandes cidades e, mais ainda, em São Paulo. Para evitar problemas, o especialista tem dicas simples, muitas delas familiares a todos, mas que continuam merecendo mais atenção:

 

  • Aumentar o consumo de água.
  • Umidificar os ambientes com uso de vaporizadores, toalhas molhadas e recipientes com água.
  • Aplicar soro fisiológico nas narinas regularmente.

O faro do especialista

Segundo o fonoaudiólogo e otorrinolaringologista dr. Bruno Rossini, caso ocorram secreções nasais de forma crônica, por exemplo, a avaliação de um médico otorrinolaringologista é necessária, pois casos de rinite ou sinusite exigem tratamento específico. O mesmo diante de sintomas respiratórios. “Hoje existem diversas medicações seguras para o tratamento e controle das alergias respiratórias, o que proporciona uma melhora importante da qualidade de vida.”

 

Uma questão de potência nasal

Todos sabemos reconhecer quando alguém soa confiante ou nervoso. O que não costumamos observar é como a respiração participa em tudo isso. “Conciliar a respiração com a cadência da fala é essencial para uma boa oratória”, explica o fonoaudiólogo e otorrinolaringologista dr. Bruno Rossini. “Quando estamos ansiosos e com medo de falar em público, é comum uma respiração rápida e superficial. Isso, por si só, prejudica nosso desempenho. Quando tornamos respiração mais consciente, conseguimos ter maior controle da situação, ficamos mais calmos. A boa potência nasal é muito importante nesses momentos.”

 

O diabo correndo de medo

O imunologista dr. Eduardo Finger garante que não precisamos temer o fato de haver bactérias por toda parte. “Depois de 3.8 bilhões de anos nesse mundo, evoluindo junto com ele, estamos mais do que preparados para lidar com qualquer bicho que entre em nosso organismo, desde que sejamos saudáveis e nosso pulmão esteja íntegro.” Os problemas podem acontecer, segundo o especialista, se o paciente tiver alguma doença de base, como asma ou qualquer outra que dificulte a manutenção do pulmão. Aí, sim, as bactérias têm uma vantagem. “A gente precisa sempre de dois para dançar. No caso das infecções, um é a bactéria, outro é o hospedeiro. Tanto que eu vou ao hospital todos os dias, e minha boca tem bactérias que fariam o diabo correr de medo! Mas não acontece nada comigo, porque eu não estou suscetível. Se eu estiver doente ou com algum problema, elas podem se aproveitar, mas em condições normais de temperatura e pressão, quando a gente está bem, elas não têm a mínima chance. ”

 

Células doidas por uma briga

Para o imunologista dr. Eduardo Finger, os asmáticos são como cachorros bravos: você só precisa dar espaço para que eles saiam latindo. “A poluição no pulmão entra em contato com aquelas células que já estão doidas por uma briga”, explica o dr. Eduardo Finger. “E tudo o que elas precisam é isso para fazer o que sabem, que é inflamar e entupir, o que só acontece quando há uma quebra de equilíbrio do sistema imune.” E para manter o sistema imune em equilíbrio, a velha e conhecida receita de alimentação saudável e exercício. “Além disso, nada mais para fazer. Parece simples – e é.”

 

O que o dentista tem a ver com isso?

Muita gente não sabe, mas problemas respiratórios podem também ser tratados no dentista. “Parece um hábito inofensivo, mas respirar pela boca pode trazer malefícios como o desenvolvimento anormal da face e das arcadas dentárias”, afirma a periodontista dra. Maria Christina Brunetti. “Como a respiração bucal faz com que a boca fique aberta a maior parte do tempo, os ossos da maxila e mandíbula sofrem alterações.” O desalinhamento dentário, uma das consequências da respiração bucal, pode ser tratado com a instalação de um aparelho ortodôntico, que corrige o posicionamento dos dentes e normaliza o crescimento facial, devolvendo a estética do sorriso.

 

Criança que ronca não está bem

A respiração nasal iniciada corretamente desde a infância é essencial para o bom desenvolvimento dos ossos faciais. A periodontista dra. Maria Laura Sandeville lembra que são comuns casos de crianças que não conseguem respirar pelo nariz, o que pode levar a problemas respiratórios e até causar alteração na arcada dentária. “Ronco em crianças é sinal de que alguma coisa na via aérea superior não está indo bem. Se ela dorme com a boquinha aberta, há algo a ser investigado.” A atenção deve ser redobrada com crianças menores, que podem sofrer com a chamada síndrome da respiração bucal, causadora de alterações no sono, ansiedade, baixo desempenho escolar, sonolência diurna. Existe, ainda, maior probabilidade de infecções respiratórias. “Chupeta e mamadeira por um tempo além do recomendado (além dos 3 anos) também são maus hábitos. O cirurgião-dentista pode orientar as famílias acerca de hábitos corretor no uso de mamadeiras e chupetas, bem como sobre o aleitamento materno”, completa a dra. Maria Christina Brunetti.

 

Melhore sua respiração

A periodontista dra. Maria Christina Brunetti ensina exercícios que podemos fazer em casa para respirar melhor.

 

  • Com a boca fechada, lábios bem selados, faça movimentos circulares com a língua.
  • Deitado com a barriga para cima, coloque um peso em torno de meio quilo sobre a barriga e respire pelo nariz. Puxe o ar com a boca fechada, enchendo todo o abdôme de ar e, assim, empurrando o peso para cima. Solte pelo nariz, esvaziando todo o ar acumulado, tentando encostar bem as costas no chão, descendo a barriga. Intercale as narinas.
  • Sentado no chão, dobre as pernas e una as plantas dos pés, segurando-os com as mãos. Faça movimentos com as pernas para cima e para baixo, respirando rápido pelo nariz.

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SÁBIOS CONSELHOS

Veja o que os especialistas sugerem
para você respirar melhor.

 

Observe o processo

Respirar pela boca, só na hora dos exercícios, quando o corpo precisa de mais oxigênio.

 

Evite a hora errada

Não existe lugar seguro, mas podemos escapar dos horários de pico de trânsito, por exemplo.

 

Mantenha limpo o sistema

A lavagem das narinas com soro fisiológico a 0.9% evita irritações nas vias aéreas e ajuda a respirar melhor.

 

Observe o sono das crianças

Ronco ou boquinha aberta durante a noite podem indicar que algo não vai bem.

 

Não fume

Toda fumaça faz mal. Cigarros de palha, orgânicos, sem nicotina ou eletrônicos são prejudiciais à saúde.

 

Fique atento aos sinais

Procure um especialista se tiver dificuldade para respirar, tosse seca ou com catarro, sensação de aperto no peito, chiado ou dor nas costas ao respirar, congestão nasal, coriza, perda de apetite, perda de peso ou perda de fôlego durante atividades físicas.

 

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