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O bom mesmo é dormir bem

A gente passa um terço da vida dormindo e a qualidade do nosso sono, conforme os especialistas, pode determinar a qualidade dos outros dois terços. Mas será que estamos dormindo bem de verdade?

27/04/2018

Como os anjos dormem

O repouso ideal de uma pessoa saudável teria de 7 a 8 horas. Ocorreria em um ambiente escuro, silencioso, sem equipamentos eletrônicos, sossegado e confortável o bastante para permitir embarque nas quatro fases do sono – incluindo aí a do REM (sigla em inglês para Movimento Rápido dos Olhos), quando, além de sonhos, acontece uma espécie de reboot no sistema. E tudo isso ainda tem um quê de novidade. “A medicina do sono é um bebê, se comparada a outras especialidades, como a cardiologia, a neurologia e outras com 150, 200, 300 ou 400 anos”, diz o dr. Fernando Morgadinho Santos Coelho, neurologista.

Segundo ele, cada estágio do sono tem um benefício específico. “As fases N1 e N2 são mais superficiais, têm uma ação de controle chamada autonômica, que cuida da pressão arterial, respiração, circulação, frequência cardíaca… Já a fase N3 é profunda, possui efeito restaurador da musculatura, dos ligamentos e dos ossos. E é nessa fase que o hormônio de crescimento é liberado – ou seja, criança que dorme mal e tem pouca fase N3, cresce menos.” Então vem a fase REM, a mais intensa. “Há mais atividade cerebral aí do que em estado de vigília! Nessa fase a gente separa e coloca tudo nas prateleirinhas, como que reorganizando o que aprendeu durante o dia.” Sabe-se hoje que privação de sono REM acarreta problemas de memória, irritabilidade, perda de atenção e poder de decisão.

Mas, o sono dos anjos parece ser apenas uma aspiração – para não dizer sonho. Nas palavras do dr. Fernando, as alterações do sono  compõem uma pandemia. “Hoje a gente dorme uma hora a menos do que um século atrás. A luminosidade é bem maior, entre vários outros fatores. Enfim, não somos o que nossos avós foram e nossos netos não serão como nós. Tem adolescente dormindo de três a quatro horas! Está havendo uma evidente evolução, para o bem ou para o mal, uma adequação a essa nova realidade de luz artificial. Depende de como a sociedade vai caminhar e de como nossa biologia acompanhará tudo isso.”

 

Como mudar sua vida dormindo fora por uma noite

A pneumologista Luciene Impelizzieri Luna de Mello Fujita, também especialista em Medicina do Sono, é bastante procurada para realizar a polissonografia, que exige do paciente nada mais do que uma jornada de sono na clínica. Além de cama e travesseiro, os médicos incluem eletrodos, cintas de esforço, computadores e outros dispositivos que irão acompanhar o repouso em detalhes, obtendo imagens e informações importantes para a avaliação. “É uma vigilância contínua, que acompanha a variação do sono, a respiração, verifica se o paciente tem comportamentos anormais ou alguma alteração neurológica, se tem ronco, e então a quantificação e a qualificação do ronco…”

Entre as mais costumeiras avaliações da polissonografia estão as que instruem o uso do CPAP, aparelho que promove ventilação forçada e na medida exata para pacientes que têm relaxamento e estreitamento das estruturas ventilatórias – a apneia do sono, que interrompe o repouso seguidamente. “Existem várias causas para o aparecimento de doenças respiratórias, a obesidade entre elas, mas há também uma carga genética importante envolvida”, afirma a especialista. “É o colapso da via aérea. Não tem osso segurando: há um cilindro muscular que serve tanto para a parte respiratória quanto para a digestória. Se essa via está estreitada por gordura, há uma certa alteração; se o paciente tiver duas amídalas enormes, o estreitamento já começa lá em cima, agrava o problema; se a pessoa tem uma estrutura óssea retrognata – como o queixo de Noel Rosa –, também.”

 

Seu filho ronca?

A dra. Luciene Impelizzieri lembra que dormimos durante um terço da vida. “O sono não é um processo pacífico, é absolutamente ativo. É ele que dá bateria aos outros sistemas. Se não tivermos bom sono, não teremos bom metabolismo, boa ventilação, bom sistema cardiovascular. Privação de sono pode acarretar problemas em todas as áreas.” Segundo ela, esses distúrbios já atingem 30% da população nas grandes cidades.

Crianças com respiração oral, amídalas grandes, adenóide e ronco devem ser tratadas desde cedo. “Conforme o caso, tiramos a adenóide, as amídalas, abrimos essa via aérea e damos espaço para que ela se desenvolva normalmente. É uma forma de termos adultos mais saudáveis.” A pneumologista ressalta a importância de todos os profissionais de medicina perguntarem do sono a seus pacientes – se a pessoa dorme bem, se o filho dorme bem, se alguém em casa ronca ou range os dentes (bruxismo)… “Na privação de sono, o adulto tem sonolência no dia seguinte, entre outros prejuízos, mas a criança, ao contrário, fica agitada durante todo o dia, torna-se hiperativa e não consegue se concentrar. Tudo porque o sono é ruim!”

 

Mexendo com as estruturas

Entre as especialidades que hoje se acoplam aos tratamentos de alteração do sono estão a otorrinolaringologia, a fisioterapia, a fonoaudiologia, a psicologia e a odontologia. “Em geral chegam aqui encaminhados por um médico, que conforme o índice de apneia e as características físicas do paciente, indica qual tratamento é melhor – se uma cirurgia, uso de CPAP ou aparelho intraoral”, explica a dra. Eliana Regina Lottenberg Vago, cirurgiã-dentista, especialista em Prótese Dental e Medicina do Sono. Segundo ela, o aparelho intraoral tem a função de reposicionar a mandíbula para a frente, colaborando para a desobstrução da via aérea. “Não tem o propósito de modificação nos dentes, não é um tratamento ortodôntico. Podem ocorrer alguns efeitos colaterais desse tipo, mas não é a intenção, por isso há um acompanhamento contínuo.”

 

Aparelho intraoral também salva o sono

Há mais de 200 modelos de aparelhos intraorais, segundo a dra. Eliana Lottenberg. “Faço aparelhos personalizados, em geral com 50% de avanço para começar.” Por meio de avaliação periódica, são feitos ajustes que forçam as estruturas da cavidade bucal paulatinamente, até que atinjam a posição ideal. “Hoje existem tratamentos combinados de aparelho intraoral com fonoterapia, assim como indicação de aparelho intraoral para pacientes que não aderem ao CPAP – porque não se adaptam ou porque não querem. Há casos de pacientes com índice de apneia grave que preferem o aparelho intraoral, e pesquisas mostram que muitos têm tido sucesso.”

Na clínica, o paciente recebe um questionário, que preenchido resulta num relatório de suas noites de sono com o aparelho intraoral. Mas há outra forma de apuração bastante confiável, como conta a dra. Eliana. “Basta ouvir os relatos do companheiro ou companheira.”

 

 

SÁBIOS CONSELHOS

Dicas de especialistas para quem
quer viver mais e muito bem.

 

  • Viva a vida

Boa alimentação, exposição à luz do sol e atividade física regular – nunca antes do sono – criam condições ideais para uma boa noite de sono.

 

  • Apague as luzes

Escureça o ambiente para que a melatonina, um dos hormônios do sono, seja saudavelmente liberada durante a noite.

 

  • Evite líquidos

Consumir bebidas à noite, especialmente antes de deitar, pode resultar num chamado ao banheiro em horário impróprio e arruinar a sequência do sono.

 

  • Pare tudo

Estudos recentes confirmam a eficiência da meditação e mindfulness (técnica de atenção plena) para melhoria do males do sono.

 

  • Fale com seu médico

O CPAP tem sido solução para muitas pessoas com alteração de sono.  Seu nível de ruído é de 10 dB, bem inferior ao de alguém que ronca.