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Lawrence Wahba só tem medo de abelha

O documentarista de natureza fala sobre o ver, o olhar e o ser visto: "Fico imaginando quantos bichos me viram sem que eu os visse".

20/07/2018

Documentarista de natureza, diretor de fotografia, apresentador de TV, mergulhador e autor, Lawrence Wahba roda o mundo atrás de cenas que o público do Brasil e de outros 160 países podem ver – quase sempre com os olhos arregalados – em canais como National Geographic, NatGeo Wild, Discovery Channel e Animal Planet.

 

Criado entre São Paulo e Búzios, onde começou a se interessar pela natureza, não demorou para chegar a seu projeto de vida, inspirado nas séries televisivas de Jacques Cousteau. Trabalhou em produtoras de filmes, foi instrutor de mergulho, fez faculdade de cinema e, claro, saiu por aí de mochila. “Conto o início da minha carreira a partir de 1992, quando vim de Los Angeles a São Paulo, de carro, documentando a natureza e os esportes radicais pela América Latina.”

 

Seu nome ganhou projeção com as séries de reportagens no Fantástico e no Domingão do Faustão, quando disseminou princípios do ambientalismo a milhões de pessoas. “Eu mostrava, por exemplo, uma tartaruga comendo uma água-viva e falava que, se jogassem um plástico na água, a tartaruga iria comer e morrer sufocada. Olha o poder dessa mensagem!”

 

Ao longo de 26 anos de carreira, ganhou prêmios importantes, como o do Festival Mundial de Imagens Submarinas de Antibes, o do Amazon Film Festival e um Emmy na categoria “Outstanding Cinematography”, pelo trabalho como diretor de fotografia na série Untamed Americas (2013). Seu projeto mais recente é o longa Todas as Manhãs do Mundo (2017), parceria entre a Canal Azul, da qual é um dos fundadores, e a Bonne Pioche, produtora francesa ganhadora do Oscar com A Marcha dos Pinguins. Autor do livro Dez Anos em Busca dos Grandes Tubarões, colunista de revistas, ele também ministra palestra em empresas, escolas e universidades.

 

Nesta conversa com Otávio Rodrigues, Lawrence conta que já trabalhou fora da gaiola com tubarão branco, que já fez caminhada com leões e elefantes na África, que já ficou sozinho com uma onça num barranco, entre outras situações reais que a maioria de nós experimentou quando criança, brincando com miniaturas e muita imaginação. “O único bicho que eu tenho medo é abelha”, diz ele. Confira!

 

* * *

 

Quando tudo começa?

 

Difícil dizer. Comecei a trabalhar com uns 16 anos de idade, fazendo vídeos institucionais com meu tio, mas conto o início, mesmo, em 1992, quando fiz minha primeira grande expedição vindo de Los Angeles a São Paulo de carro, documentando a natureza e os esportes radicais por toda a América Latina.

 

Você teve uma infância praieira, é isso?

 

Tive o privilégio de ter pais que gostam de natureza. Eles alugavam uma casa de pescador, sem luz elétrica, numa praia deserta, e eu ficava o tempo todo brincando com os filhos dos caiçaras, de canoa, subindo em árvores… E foi aí, com uma mascarazinha de mergulho, na praia das Tartarugas, em Búzios, no comecinho dos anos 1970, que eu descobri o fundo do mar.

 

Já estava com uma câmera na mão?

 

Foi tudo meio junto. Eu assistia aos filmes do Jacques Cousteau e sonhava fazer algo parecido. Falo brincando que, na minha infância, eu sabia de cor e salteado a escalação de dois times: a do Santos, meu time, e a da equipe Cousteau. Nem lembro isso direito, mas meus pais contam que, com uns sete anos de idade, eu reconhecia cada um daqueles mergulhadores da equipe na televisão. Sonhei isso para mim e acabou dando certo.

 

E quanto de esforço tem aí envolvido?

 

Fui me preparando para chegar onde cheguei. Trabalhei em vídeo, como assistente aos 16 anos de idade e, com 18, eu já dirigia na produtora – dirigia Kombi, mas dirigia (risos). Depois, fiz faculdade de cinema e, em paralelo, comecei a dar aula de mergulho, a fazer cursos, e fui juntando os conhecimentos necessários para poder fazer meu trabalho.

 

Onde entra o espírito aventureiro?

 

Veio aos 20 anos de idade. Tranquei a matrícula na faculdade, passei um ano dando a volta ao mundo com mochila nas costas. Trabalhei de marinheiro em Israel, de guia de mergulho no Egito, no México, encarei subemprego na Europa… Isso tudo foi me dando confiança para, hoje, fazer essas expedições, que são muito mais complexas do que naquele tempo.

 

O mergulho, então, foi seu grande começo?

 

Sim, mas eu me preparei com vídeos fora da água, também, inclusive durante a adolescência, no tempo de faculdade – eu fazia até filme de festa de casamento, cobria evento em sindicato! Tinha de pagar as contas e agregar horas de voo, por assim dizer. Então, comecei a filmar meus alunos de mergulho e tive umas das primeiras câmeras de vídeo Hi8 subaquáticas no Brasil. Quando importei esse equipamento, na mesma semana já estava fazendo trabalhos para TV Record, SBT e Globo.

 

Qual é o segredo dessas imagens com animais selvagens, cenas tão próximas e reveladoras?

 

É contar com bons guias locais, porque o mesmo animal age de forma diferente em diferentes regiões. Através do olhar e do conhecimento do guia e com a experiência e a bagagem que a gente tem, por ter feito isso em muitos habitats e com muitos animais, a gente consegue superar as dificuldades e consegue filmar.

 

Quando foi a última “reunião no escritório”?

 

Estou chegando de duas expedições para filmar onça parda no Pantanal. É um dos animais mais ariscos que existem, por ser muito caçado, por ser bem menor que a onça pintada, então costuma ter muito medo do ser humano. Por anos e anos indo ao Pantanal, eu só tinha visto onça parda duas vezes, e por uns 10, 15 segundos.

 

Essa apareceu agora e, por alguma razão, não tinha muito medo de humanos, permitiu a gente acompanhar e filmar exaustivamente em duas viagens de dez dias.

 

No que diz respeito ao ver, ao olhar, como isso se desenvolve em você?

 

Pois é, tem o olhar e o ver, que são coisas bem diferentes. O ver a gente vai aperfeiçoando com o tempo. Tem um indígena Uapixana que é de Roraima, mas é guia no Pantanal há 17 anos, e eu entrava na mata com ele e, por mais treinado que eu seja, ele já vê num lance, no detalhe – uma pegada no chão e ele já sabe que a onça foi para lá. Eu até falei brincando: Pô, Flavião, já já eu te alcanço, mais umas três ou quatro encarnações eu chego no teu nível…! (risos)  Bem, quando eu guio um grupo de fotógrafos, eu avisto uma onça, avisto uma ave, e eles não conseguem ver!

 

E qual é, afinal, a diferença entre o ver e o olhar?

 

O ver pode ser treinado. O olhar… Vai parecer um pouco abstrato ou esotérico, mas tem muito de você se entregar e fazer parte do lugar. O olhar, para mim, envolve seis sentidos: os nosso cincos sentidos tradicionais e o sexto sentido, que vem dessa conexão com a natureza. É você sentir que determinado lugar é um lugar para fazer uma espera.

 

Fazer uma espera?

 

É, porque um documentarista de natureza, eu até brinco, devia ganhar como taxista, andar por aí com um taxímetro rodando. A gente, espera, espera e espera… Tem um take dessa onça parda que eu tive de ficar nove horas em silêncio, na beira de rio em que ela estava deitada – eu sabia que em algum momento ela teria que sair de lá. E ela saiu, cruzou o rio e eu fiz as imagens. Aí eu mostro as fotos e alguém fala: “Nossa, que sorte, uma onça parda na água!”

 

Ou acha que foi combinado com a onça…

 

Isso é um pouco resultado desse olhar, é você analisar a situação, analisar o todo. A onça entrou num capão de mato próximo a um rio, atrás a água está mais funda… então você sabe que, cedo ou tarde, ela teria que sair dali – e isso poderia acontecer no meio da noite, mas ia sair em algum momento.

 

Como manter a fleuma nessas situações?

 

Eu pratico yoga há muito tempo, meu trabalho precisa muito de físico e mental. As pessoas não imaginam como é desgastante o trabalho de um documentarista de natureza do ponto de vista mental. Todos ficam pensando que você apenas carrega equipamento e vai para muitos lugares…

 

E isso é bem verdade, certo?

 

Sim, mas eu posso estar dormindo num casebre ou acampado no meio do mato, ou posso estar num hotel cinco estrelas ou num barco super confortável, mas o trabalho mental, que é essa paciência, essa concentração, é o mesmo.

 

Nesses momentos de tensa placidez, o que você pensa?

 

Só posso estar ligado nos sinais e não me dispersar, não me distrair, porque se eu começar a pensar na vida, começar a pensar em outra coisa, posso fazer um barulho que assuste o animal, posso simplesmente perder a cena, posso estar olhando para cá e o bicho estar aqui.

 

Como são suas palestras e conferências?

 

Eu gosto muito porque, no final das contas, é muito aquela frase “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Porque eu procuro ser os olhos das pessoas em lugares onde elas não vão, não têm acesso, não têm como ver. Então, tento trazer realidades aqui do Brasil ou do exterior, algo que toque o coração das pessoas para que elas tenham vontade de preservar.

 

Quem é seu público?

 

Trabalho com um público muito variado. Hoje, através das mídias sociais, dos programas de TV, livros e tal, meu trabalho está chegando para muita gente, eu perco um pouco o controle de como o recebem. Por isso, gosto muito de falar em escolas e empresas, porque é uma forma de trocar experiências e ver como esse meu trabalho está chegando. Faço muitas palestras para o meio corporativo, analogias sobre planejamento, trabalho em equipe, gerenciamento de riscos, às vezes conteúdos específicos para empresas que trabalham com crianças.

 

Por que as crianças?

 

Todas as Manhãs do Mundo, meu primeiro longa de cinema, é totalmente voltado para o público infantil. As crianças são a oportunidade de mudar, por isso eu gosto de trabalhar com elas, gosto de plantar a sementinha, de ver o interesse que elas têm pelos animais e pela natureza. Porque se alguém pode fazer algo diferente, realmente mudar, são as próximas gerações – e só espero que a nossa geração não destrua tudo antes de as outras tomarem o controle.

 

Você é otimista?

 

O que me dá um pouco de esperança é isso, ir nas escolas, principalmente as dos pequenininhos. No lançamento de Todas as Manhãs do Mundo, fiz mais de trinta palestras de divulgação. Falei com crianças de cinco anos e com universidades e escolas técnicas, e o que mais me surpreendeu foi como os pequenos são apaixonados e têm perguntas mais interessantes do que os jovens quase adultos.

 

O que dizem os pequenos?

 

As crianças estão mais abertas para receber informações, têm aquele olhar de encantamento pela natureza. Acho que a gente já nasce com isso, mas vai perdendo com todas as obrigações e tensões do dia-a-dia, contas que tem que pagar… A gente vai se desconectando do que é real e ficando cada vez mais nessa caixinha virtual. Eu ouvi coisas tão incríveis de crianças de 4 a 7 anos de idade, e ouço dos meu filhos, que já estão um pouco mais mocinhos, com 11 e 14 anos, e que cresceram em contato com a natureza. Eu chego a ter esperança no planeta através dos olhos das crianças – do olhar das crianças, já que estamos falando de olhar.