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Ouvir estrelas

Além de cenas inesquecíveis, perfumes e comidas deliciosas, viagens ganham novo sentido quando vamos de ouvidos abertos.

12/11/2018

Ouvir estrelas
Além de cenas inesquecíveis, perfumes e comidas deliciosas,
viagens ganham novo sentido quando vamos de ouvidos abertos.

 

Por Gabriela Aguerre

 

Já parou para pensar em como os sons ao redor afetam nosso ânimo? Se passamos muito tempo em uma feira ruidosa, a tendência é querer escapar. E não tem aquele bar bacana e sempre lotado, que se torna chato quando queremos escutar apenas a conversa de quem está à nossa frente? Conforme as circunstâncias e o estado de espírito, o sonoro burburinho de uma metrópole pode trazer entusiasmo a quem está cansado de uma vida pacata ou estresse entre os que andam precisando de sossego.
Viajamos por lugares e também por suas atmosferas sonoras. Depois daquela esquina tem um violinista tocando na rua e, mais adiante, um concerto sinfônico em uma sala de acústica perfeita. Podemos aprender e nos divertir mesmo não entendendo uma palavra das centenas que nos chegam a cada segundo em um mercado oriental, assim como sentir uma paz inefável ao perceber os sons de uma floresta ou ao despertar com o suave murmúrio do mar. O que seria tudo isso, se não a trilha sonora do filme da nossa vida?
Da mesma maneira que escolhemos o destino avaliando a época do ano e o clima, os aspectos cênicos, a arquitetura e os sabores locais, podemos fazer o mesmo em relação à paisagem sonora. Aqui vão algumas ideias…

 

Os sons da Terra

Vivemos o tempo todo rodeados por melodias, harmonias e ritmo – a começar pelos batimentos do nosso coração (se estamos atentos, conseguimos percebê-los!). Os sons que nós mesmos produzimos, no entanto, são uma parte ínfima da partitura de sons emitidos pela natureza – talvez a categoria sonora que mais mexe com nossos sentimentos, em especial os que dizem respeito ao nosso lugar no mundo e à imensidão de tudo que nos rodeia.
Para além de uma combinação casual de frequências, os sons da natureza revelam as relações do hábitat. Essa é a teoria na qual trabalha o músico e pesquisador norte-americano Bernard Krause depois de ter viajado pelas florestas equatoriais da África, da Ásia e da América Latina (www.wildsanctuary.com). Uma de suas experiências foi gravar os sons de uma floresta antes e depois da derrubada de algumas poucas árvores. Krause notou que, embora não houvesse uma percepção visual da mudança, a quantidade de sons tinha sido afetada significativamente, tendo perdido toda uma camada de assovios, diálogos e harmonias.
O vento, a água, as ondas, a chuva, o fogo – são todos como instrumentistas de uma grande orquestra. Até as montanhas podem ser ouvidas, algo que tanto a ciência como a arte podem comprovar. Em Inhotim (www.inhotim.org.br), considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina, uma das esculturas mais visitadas chama-se Sonic Pavillion. Idealizada pelo artista norte-americano Doug Aitken, consiste em um anfiteatro de aço e vidro construído no alto de uma montanha e em torno de um poço com 202 metros de profundidade, dentro do qual vários microfones estão instalados. O som de gotas, o ranger de rochas, o estrondo surdo da Terra… Há quem compare o resultado a músicas de caráter experimental, como as do minimalista Steve Reich.

LEGENDA Sonic Pavilion, em Inhotim (MG): as profundezas falam.
CRÉDITO Josep/BHz/Wikimedia Commons

 

 

Os sons dos bichos

“A Terra é uma jukebox movida à energia solar.” Quem diz isso é o pesquisador norte-americano Gordon Hampton, que roda o mundo gravando a natureza (www.soundtracker.com). Ou seja, em vez de notas, fotos ou desenhos a giz, o que Hampton traz de suas viagens são lembranças como o som de grilos ao cair da tarde, do alvorecer nas pradarias, do vento varando os cânions. Qualquer pessoa pode fazer gravações de qualidade usando um prosaico smartphone, mas esse ecologista acústico investiu num tipo de microfone 3-D tido como ideal para captar o som ambiente e que, não por acaso, tem o formato de uma cabeça humana. Entre as maravilhas que ele descobre e registra com todo esse apuro está o som produzido no oco do tronco de uma enorme sitka spruce (Picea sitchensis), árvore conhecida por fornecer o melhor material para tampos de violinos e violões. Bravo!
O uruguaio Juan Pablo Culasso é outro aplicado caçador de sons (www.jpculasso.net). Cego de nascença, com uma audição supersensível, ele se dedica a buscar e gravar as aves, sendo capaz de identificar mais de 500 cantos diferentes. Seus conhecimentos, afora a história inspiradora, fazem dele um conferencista solicitado em hotéis de selva, onde os viajantes chegam precisando aprender a ouvir a natureza.

FOTO O que será que o tucano quer dizer com seu canto?
CRÉDITO Ingrid Torres de Macedo/Wikimedia Commons

 

Os sons dos humanos

O conjunto sonoro produzido pelos seres humanos é chamado de antrofonia. Ela pode ser caótica e imprevisível, como a do trânsito nas metrópoles, e pode ser organizada e melodiosa, como a dos sinos que dobram nas cidades históricas de Minas Gerais, na onda que emana das arquibancadas lotadas de um jogo no Maracanã, dos chamamentos às preces que saem dos alto-falantes da Medina de Marrakesh. Sim, há uma linha delicada entre o que é ou não é agradável aos ouvidos, e a chance de termos apenas poluição é bem grande.
Preocupada com altos índices de perda de audição, uma empresa de tecnologia da Noruega ouviu 200 mil usuários para saber qual é a cidade com a pior poluição sonora no mundo. O resultado foi Guangzhou, na China, seguida pelo Cairo e por… Paris! Sensível a sua má fama, desde 2014 a capital francesa vem praticando a Journé Sans Voiture (ou Dia Sem Carros), que promove uma circulação mais saudável, tranquila e silenciosa para as pessoas (o evento de 2018 está marcado para 16 de setembro). No extremo dessa medição encontra-se Zurique, na Suíça, cidade com menos poluição sonora do mundo. Bom lugar para ouvir os próprios pensamentos, em vez de apenas ir às compras na Banhofstrasse.

LEGENDA Maracanã: música para os ouvidos dos amantes de futebol.
CRÉDITO Leandro Neumann Ciuffo/Wikimedia Commons

LEGENDA Zurique, na Suíça: destino Silêncio.
CRÉDITO Andrew Bossi/wikimedia.org

 

 

Em busca da perfeição

Na sala de concerto, acontece o ritual aparentemente desconexo de afinação dos instrumentos, com aquela variedade de sons tentando se harmonizar. Enquanto as cordas da orquestra procuram a nota Lá, os metais afinam o Si bemol. Diz-se que até encontrarem as vibrações perfeitas o espetáculo não começa – e, na verdade, para alguns atentos na plateia, já começou.
Não precisa ser um melômano – nome que se dá a quem cultiva apreço exagerado por música – para se encantar com um concerto em um teatro de boa acústica, nos quais cada instrumento e cada nota chegam direitinho a todos os ouvidos da audiência. Um exemplo de acústica impecável existe na Sala São Paulo, ícone da capital paulista (www.salasaopaulo.art.br). O elemento principal de sua construção é a madeira, que reflete o som sem distorcer tanto como o mármore ou outros materiais frios. Ajudam muito, ainda, os painéis móveis que compõem o teto: dependendo da conformação da orquestra, eles se aproximam ou se afastam do palco para criar atmosferas perfeitas e fazer com que o som viaje em ondas calculadamente exatas até os ouvidos de cada um.
Para outra experiência de acústica excelente, vale ir à capital europeia da música clássica, Viena, famosa por ter recebido Mozart, Beethoven, Haydn, Schubert, entre outros grandes compositores. Inaugurada em 1870, a Musikverein (www.musikverein.at) é uma das principais salas da cidade – talvez do mundo. Repleto de detalhes em ouro, o salão principal, chamado Großer Musikvereinssaal, obtém o que eles chamam de “um som também de ouro”.

FOTO 1 Sala São Paulo: igualdade para os sons.
CRÉDITO Sturm/Wikimedia Commons

 

FOTO 2 Großer Musikvereinssaal: excelência acústica.
CRÉDITO Kiefer/Wikimedia Commons