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No mesmo barco

No mesmo barco Receita de especialistas é amorosa: cuidando ou sendo cuidados, temos de estar todos juntos.

15/10/2018

No mesmo barco

Receita de especialistas é amorosa: cuidando ou

sendo cuidados, temos de estar todos juntos. 

 

Por Angélica Queiroz

 

 

O ser humano necessita de cuidados. Estamos entre as poucas espécies que não sobrevivem se não receberem atenção nos primeiros anos de vida – e sabemos como essa dependência costuma ser duradoura. Claro, vale também para outras fases da vida, pois os pais poderão, mais tarde, precisar dos cuidados dos filhos. E afora essa lógica natural, um imprevisto pode colocar qualquer um de nós cuidando de outro ou sendo cuidado por alguém de uma hora para outra. No entanto, cuidar ainda é um tema cercado de dúvidas. Por que algumas pessoas parecem ter aptidão para cuidar? Como cuidar de alguém que não quer receber ajuda? Dá para fazer isso sem esquecer dos cuidados consigo mesmo? A recomendação geral é de que é preciso humanizar as relações, olhando para os envolvidos como um todo – e com amor. Parece subjetivo ou meio piegas? Confira aqui o melhor de nossas conversas com os médicos da rede credenciada.

 

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Comece com o autocuidado

Apesar de essencial para a sobrevivência, afora os milhões de anos de prática, continuamos meio perdidos tanto para cuidar quanto para receber cuidados. “As pessoas têm dificuldades para identificar que precisam ser cuidadas, embora busquem o outro quase que o tempo todo para satisfazer às suas necessidades”, afirma a psicóloga dra. Maria Angélica Dare Cordio. Por conta disso, segundo ela, a maioria se esquece de uma regra básica: é preciso certificar-se de que está tudo bem consigo antes de se dedicar ao outro. “Em geral, as pessoas só procuram ajuda quando estão com problemas sérios, uma grande angústia com a qual não conseguem mais lidar sozinhas.” Para a especialista, olhar para si, se conhecer e se reconhecer, faz toda a diferença na qualidade de vida. “Buscar análise é cuidar de si mesmo, porque ela leva por um caminho que permite ao paciente fazer escolhas que ampliam suas possibilidades de ter uma vida mais plena e satisfatória, entendendo que tudo parte dele, mesmo que no inconsciente. Isso reflete em todo mundo com quem ele convive, inclusive no trato.”

 

Para além do instinto

Pessoas que fazem algum trabalho social ou que envolva interesse pelo bem-estar do outro relatam, comumente, se tratar de algo gratificante. Mas, de onde vem essa satisfação? Para a psicóloga dra. Maria Angélica Dare Cordio, só é possível cuidar em um ambiente de afeto. “Até para botar água numa plantinha, você tem de gostar dela.” Conforme a especialista, não é possível explicar o porquê de algumas pessoas serem egoístas e outras parecerem querer cuidar do mundo. “O indivíduo é resultado de um somatório de fatores, que envolvem, para além da genética, o ambiente familiar e suas experiências. No geral, essa satisfação vem do sentimento de amor e humanidade. Às vezes, cuidar do outro também é cuidar de si.” Para Freud, por exemplo, a criança não nasce genuinamente bondosa e precisa ser ensinada nessa direção – uma entre as muitas teorias de um tema controverso. “Cada criança é diferente. Enquanto é difícil ensinar para algumas a olhar além das próprias necessidades, outras parecem ser generosas naturalmente e ficam felizes ao dividir o brinquedo com o amigo.”

 

Um tempo para fazer nada

As agendas das crianças estão lotadas, tão ou mais frenéticas que a dos adultos. Segunda tem inglês, terça tem francês e quarta tem japonês. É preciso praticar esportes, porque faz bem para a saúde. E, para chegar no local dessas atividades, trânsito. E para não perder a hora, por vezes, o lanche no carro substitui a refeição. Bem, os pais costumam ter as melhores intenções mas, especialistas alertam que cuidar também é dar tempo para os filhos fazerem nada. “São cada vez mais comuns internações de crianças e adolescentes com dor de cabeça, por exemplo, e os exames não detectam nada”, afirma a pediatra dra. Luciana Sakita. “A causa pode ser estresse, simplesmente.” Segundo ela, muitas vezes há uma tentativa dos pais em reparar a ausência com mimos e promessas, o que não pode ser confundido com cuidados. “Os limites aí precisam ser bem estabelecidos. Cuidar, às vezes, é ‘perder um tempo’ com os filhos perguntando como está o clima em casa, em vez de pedir uma tomografia.” É importante olhar para cada situação como um todo, diz a especialista. “Outro dia, uma colega acompanhou uma criança em internação em sua festinha de aniversário. Não havia alta médica, mas a comemoração já estava planejada. Do que mais que essa pequena paciente precisa?”

 

Somos mesmo exagerados?

Nossas avós não cansam de dizer que os pais de hoje estão exagerando, que antes se podia dar leite direto da vaca e que, agora, é preciso esterilizar todas as várias mamadeiras, entre outras medidas que lhes parecem estranhas. Há quem acredite que expor um tanto os mais frágeis pode ajudar o corpo a criar defesas. Afinal, excesso de cuidado é bom ou não? “Depende”, afirma a pediatra dra. Luciana Sakita. “Não significa que a criança vá ter menos anticorpos ou algo assim mas, muitas vezes, os exageros podem trazer problemas [sobrecarregando] àqueles que  cuidam. O que é o excesso? É aquilo que está ultrapassando os limites.” Para a especialista, não existe exagero quando quem cuida está feliz. “Não podemos criar rótulos e regras. Eu faço questão de fazer a comida dos meus filhos toda noite. É necessário? Toda mãe tem de fazer isso? Não, mas isso me faz bem.”

 

Confiança é essencial

A evolução tecnológica trouxe mudanças significativas na esfera dos cuidados, permitindo que eles comecem antes mesmo do nascimento. Com tanta informação, os pais ficam aflitos e inseguros. “Só peço dez exames quando eles não acreditam no que a gente está dizendo”, diz a pediatra dra. Luciana Sakita. “Construímos pais ansiosos e preocupados.” Ela cita o exemplo da mãe que se desespera porque o filho está com uma simples febre. “Está certa, é o filho dela! O problema não é a febre mas, sim, a pessoa mais importante da vida dela com febre. Cuidar desse problema, então, envolve olhar para quem está sofrendo mais, que é a mãe, pois ela não sabe o que fazer.” A especialista acredita que desenvolver uma relação de confiança é essencial. “Sempre falo para os pais o que eu faria se fossem os meus filhos. É importante se colocar no lugar dos outros, o que nem sempre é fácil. Acho que isso é ter um cuidado.”

 

Tire o skate do vovô 

Qualidade de vida e exercícios regulares são parceiros naturais. Mas, atenção! Não convém escolher qualquer atividade física sem critério. O ortopedista dr. Benjamin Apter, especialista em medicina esportiva, explica que análises prévias precisam ser feitas para saber se a pessoa vai investir no esporte correto, seja ele recreativo ou competitivo. “Isso porque algumas pessoas simplesmente não têm características genéticas e aptidão física para determinadas atividades.” Segundo ele, uma escolha inadequada pode fazer surgir doenças, dores e lesões, justamente o contrário do que se está buscando. E é comum as pessoas irem avançando na idade levando junto os esportes que praticam desde crianças, o que pode não ser boa ideia. “Precisamos nos adaptar ao esporte ao longo da vida. Numa queda de skate, por exemplo, a resposta ao tratamento de uma lesão será muito mais rápida em um jovem do que em uma pessoa de 70 anos.”

 

Força nos músculos

Para o ortopedista dr. Benjamin Apter, fortalecimento muscular é o exercício de maior benefício para pessoas idosas e sedentárias decididas a se cuidar. “A musculação é a base, tanto para prevenção quanto para tratamento. E não estamos falando de fisiculturismo, mas de exercícios na dose certa para criar mais resistência.” O mesmo vale para uma fisioterapia de sucesso. “Os choquinhos servem apenas para tirar a dor ou o processo inflamatório – o que é necessário, porque quem está com dor não consegue fazer exercício. Mas o que vai tratar o paciente, mesmo, são os exercícios físicos de fortalecimento muscular.” Especialista em medicina esportiva, ele destaca que, para além de se mexer, a pessoa precisa cuidar bem de si, das relações sociais, de lazer e, claro, manter uma dieta balanceada. “Alimentar-se bem é saber o quanto pode consumir para ter um peso considerado ideal para a sua altura e idade.”

 

Os novos velhos chegaram

Para a geriatra dra. Karol Thé, o envelhecimento ativo depende muito do que cada um constrói ao longo da vida. “Se a pessoa se alimenta de forma adequada, faz exercícios físicos regulares e tem uma vida social satisfatória, a chance de ela envelhecer melhor é maior. E diminuem as chances de que ela desenvolva condições de saúde crônicas, que exijam cuidados de terceiros.” A ideia é que os os idosos se empoderem, cientes da importância do autocuidado. “Nunca é tarde para começar a mudar a história de uma doença, por exemplo. O processo de melhora da qualidade de vida está na mão do paciente, que precisa ser o protagonista do processo de tratamento e de cura.” A especialista conta que “novos velhos”, mais antenados com a questão da longevidade ativa, começam a aparecer entre seus pacientes. “Tenho recebido idosos mais jovens, na faixa dos 60 anos, muito mais preocupados em prevenir as doenças – o que é ótimo e não era comum na geração de nossos avós.”

 

A terceirização do cuidado

Envolvidos em suas rotinas, muitas vezes os familiares não estão preparados para cuidar de alguém em situação de dependência física ou cognitiva. Recorrer à terceirização tornou-se bastante comum. Para a geriatra dra. Karol Thé, independente de quem vai cuidar, o mais importante é que seja feito com amor, num ambiente de acolhimento. “Ter a presença da família é muito importante emocionalmente.” Ela lembra que, para um idoso que era ativo, precisar de cuidados não costuma ser fácil, especialmente quando isso envolve a perda da independência física. “Muitos entram em quadro de depressão e ansiedade, ou tendem a se isolar quando se veem em condição de maior dependência.” Para a especialista, a família deve evitar a imposição e negociar sempre, fazendo a pessoa entender a necessidade daquilo, para que a aceitação venha da forma mais suave possível. “A gente tenta educar a família e o idoso em relação ao processo de cuidar, porque é um desafio para todo mundo.”

 

Como você escova os dentes?

É difícil resistir a um creme dental com promessas milagrosas de clareamento – mas cuidado! “Essas pastas podem ser abrasivas para o dente”, alerta o cirurgião-dentista dr. Marcus Amaral. Assim como outros especialistas, ele observa que muita gente acredita estar cuidando direito da saúde bucal – só que não. A começar da escovação, que exige a escova certa, sempre com cerdas retas e macias, de tamanho compatível com a boca. “Cerdas duras não limpam mais, podem até causar lesões.” O palito de dente é outro vilão: não limpa direito, pode machucar… Melhor recorrer ao fio dental. Quando indicadas, escovas elétricas podem ser boa alternativa. “São ótimas para pacientes com alguma restrição motora, por exemplo.” Estudos mostram que problemas iniciados na boca podem afetar o pulmão, o coração e até o cérebro, o que só reforça a recomendação de visitas regulares ao dentista.

 

Cuidando do dente de leite

Antigamente, era comum as pessoas passarem quase a vida toda sem ir ao dentista. Muitas acabavam perdendo os dentes e recorrendo às dentaduras. Na era da informação, com mais gente se cuidando, isso tende a se tornar cada vez mais raro. “O dente não foi feito para ser perdido com a idade”, afirma o cirurgião-dentista dr. Marcus Amaral. Ele lembra que, para chegar lá na frente com dentes saudáveis, os cuidados devem começar bem cedo na vida – e aí a responsabilidade cabe aos pais. “São comuns casos de cáries em dente de leite.” Ao contrário do que se pensa, esses dentinhos também merecem atenção. “O dente de leite tem a função de guardar espaço para o permanente, só deve ser perdido na hora certa.”

 

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SÁBIOS CONSELHOS

Médicos e especialistas dão dicas para não errar

na hora de cuidar de si e dos dos outros.

 

Fortaleça os músculos

A musculação é a base para prevenir problemas em qualquer atividade física.

 

Fique de olho nas calorias

Tente equilibrar as calorias de seus gastos diários com as dos alimentos que consome.

 

Encontre sua vocação

Consulte um especialista antes de começar em uma prática esportiva ou se dedicar a qualquer atividade física não-rotineira.

 

Limpe a área

Degraus, móveis com cantos agudos, tapetes que embolam e vidros no box do banheiro são ameaças para todos, especialmente os idosos.

 

Seja doce

Conversas pacientes e esclarecedoras são mais eficazes do que imposições na hora de convencer crianças de 8 a 80 anos a mudarem certos hábitos.

 

Não espere receita pronta

O cuidado que dá certo com um, nem sempre funciona com outro.

 

Pense também em você

Ao cuidar do outro, não ultrapasse seus próprios limites.

 

Cuide com amor

As pessoas sentem quando estão sendo cuidadas por quem gosta de fazê-lo – e é aí que está a diferença.