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Mudanças radicais

Especialistas ressaltam que, além de encantamento, ternura e esperança, os bebês chegam com um contêiner de exigências e outro de novidades para a rotina de pais e mães.

14/11/2018

Mudanças radicais

Especialistas ressaltam que, além de encantamento, ternura e esperança, os bebês chegam com um contêiner de exigências

e outro de novidades para a rotina de pais e mães.

 

Por Angélica Queiroz

 

 

O desafio começa no tamanho de nossa cabeça, grande demais para passar pelo canal na hora do parto. E nós, humanos, ainda temos essa mania de andar eretos, o que faz com que o quadril das mulheres seja mais estreito que o de outros mamíferos. Como se não bastasse, os bebês estão cada vez maiores, por conta de mudanças em nossos hábitos alimentares…

De alguma maneira, há séculos a ciência vem tentando facilitar o processo de gestação e nascimento – algo trivial, dá para dizer, mas que para além dos desafios físicos, muda inteiramente a rotina de todas as famílias. O resgate de modos tradicionais para dar à luz, voga recente entre muitas mães, parece trazer ainda mais dúvida e insegurança. Escolher a forma de parir é quase que um parto.

No mês dedicado ao “nascer”, ouvimos alguns dos melhores profissionais do país, especialistas de nossa rede credenciada, buscando ideias e conhecimento sobre como se preparar para a chegada de uma criança e conduzir a vida sem perder a têmpera ou esquecer de si. Mantenham-se tranquilos e boa leitura!

 

O parto dos sonhos e a dura realidade

“Não faço parto em casa de jeito nenhum. Estamos em 2018, não em 1800!” Quem fala é a ginecologista e obstetra dra. Elis Nogueira, cujo consultório está repleto de fotos dos bebês que ajudou a vir ao mundo nos últimos 20 anos. “A paciente hoje usa carro automático e viaja de avião… Por que não utilizar os recursos disponíveis na medicina?” Experiente em partos de risco, o que não lhe faltam são argumentos. “Anatomicamente, estamos falando de uma pequena abertura pela qual passa um bebê de três quilos.” O parto humanizado – a grosso modo, aquele feito com o mínimo de intervenções médicas e fora do ambiente hospitalar –, tornou-se o sonho de muitas mulheres, mas realizá-lo, ela explica, nem sempre é possível. “O parto normal é maravilhoso, mas não pode ser feito a qualquer custo. Às vezes, está tudo certo para isso no pré-natal mas, na hora, é preciso intervir. A cesárea não deve ser a primeira opção, mas não pode ser a vilã.” Ela conta que, nos partos normais, só faz analgesia quando a paciente pede, mas que sempre leva um anestesista, que fica à disposição. “Ninguém vai ser mais mãe ou menos mãe por causa de uma analgesia. Como a pessoa pode decidir se vai precisar ou não, se ainda não sabe?”

 

O colinho faz a diferença

Mais que emocionante, é saudável pegar no colo o bebê ainda ligado pelo cordão umbilical. Conforme a ginecologista e obstetra dra. Elis Nogueira, essa conduta aumenta a imunidade e diminui as chances de anemia no bebê – benefícios que, inclusive, levaram ela e sua equipe cirúrgica a inovar durantes as cesáreas, para que a mãe possa assistir ao parto e, em seguida, se as condições permitirem, segurar o bebê no colo. “Na cesárea tradicional, a mãe não vê o que está acontecendo. Fomos a primeira equipe no Brasil a fazê-la com visor transparente, um recurso para que a paciente tenha toda aquela emoção do parto normal também na cesárea.” Ela acha ótimo, ainda, a presença de uma doula, que presta assistência física e emocional para o casal durante o trabalho de parto. “Apenas recomendo que elas sejam, também, enfermeiras obstetras.”

 

De dentro da barriga

O avanço da medicina fetal, aliado ao diagnóstico precoce, tem possibilitado a redução da mortalidade de recém-nascidos e mães. “Hoje é possível, pelo colo do útero, no início da gestação, identificar e fazer procedimentos que diminuem a chance de a criança nascer prematura, por exemplo”, comenta o especialista em medicina fetal dr. Antônio Fernandes Moron. Segundo ele, as gestantes com algum fator de risco precisam ter atenção redobrada, mas o planejamento adequado é indicado para todas. “Isso assegura que o desenvolvimento do bebê está indo bem.”

 

Lances de ficção

Certos tratamentos durante a vida fetal parecem coisa de filme futurista. Além da administração de medicamentos, é possível retirar ou introduzir líquido amniótico no útero, fazer transfusões de sangue e até cirurgias – que podem ser realizadas por endoscopia ou o “a céu aberto”, como chamam os especialistas, casos em que o útero é exposto para permitir a intervenção no bebê. “A criança já nasce operada daquela anomalia.”

 

Azão-azão com Azão-azinho?

Ainda tem gente que entra no consultório da geneticista dra. Fabíola Monteiro querendo, por exemplo, escolher a cor dos olhos do bebê. “Não funciona como naquele exemplo que a gente aprende no colégio”, afirma ela. “Esse é um traço multifatorial, que envolve também questões ambientais. Então, mesmo sem entrar no mérito da questão ética, escolhas desse tipo nem seriam possíveis.” Selecionar o sexo da criança também é proibido por lei no Brasil, exceto em situação específica, quando há doença genética ligada ao cromossomo que define se é menino ou menina.

 

Nem tudo é dos pais

A geneticista dra. Fabíola Monteiro explica que, quando certas alterações genéticas são identificadas antes da gestação, o casal pode optar por outras formas de reprodução. “Dependendo do caso, podemos usar esperma ou óvulo de doador ou fazer uma fertilização in vitro, testando e selecionando os embriões.” A especialista reforça que essas indicações só acontecem em casos específicos. “Muitas vezes, a alteração não é herdada, acontece na hora da formação daquela criança – o que a gente chama de ‘mutação de novo’. A gente precisa avaliar cada caso.”  Ela ressalta que casais com histórico de doença genética ou grau de parentesco devem, idealmente, procurar um geneticista durante o planejamento da gravidez. “Para os outros, eu não diria que é obrigatório. Mas, se é para pecar, que seja pelo excesso de zelo.”

 

É mais simples do que parece

Médico de família com especialidade em pediatria clínica, o dr. Frederico Pereira Chaves é carinhosamente conhecido como dr. Fred no Boa Hora Omint – programa que oferece orientação multidisciplinar para gestantes e recém-nascidos em casa, numa perspectiva que envolve toda a família. Segundo ele, a maior parte das inquietações dos pais e mães tem menos a ver com parte biológica, está mais relacionada ao contexto familiar e questões práticas. “Em geral, eles querem saber coisas sobre acidentes domésticos ou cuidados com o banho.” Para o dr. Fred, um dos diferenciais do programa Boa Hora está em ajudar as pessoas a entender o processo dos rearranjos familiares em todos os níveis. “As coisas mudam e essa fase vai passar. Então eu sempre oriento os pais a terem um pouco mais de tranquilidade.”

 

Bebê sem manual

Chega um bebê e todo mundo tem um palpite para dar. Mas, na verdade, cada família precisa encontrar o que funciona dentro de sua realidade. Por exemplo, convém resguardar os recém-nascidos? Para o médico de família dr. Frederico Pereira Chaves, integrante da equipe do programa Boa Hora Omint, que oferece orientação multidisciplinar para gestantes e recém-nascidos em casa, é prudente evitar as saídas desnecessárias nos primeiros dois meses. Outra questão frequente, segundo ele, diz respeito à integração das crianças com os pets. “Não costuma ser algo problemático – ao contrário, ainda favorece o desenvolvimento psicomotor do bebê. Claro que essa aproximação deve ser gradual, respeitar limites, mas não há justificativa para distanciar um animal que já faz parte da família.”

 

O chá da vovó não é uma boa

Era comum, antigamente, os bebês serem empacotados como um charutinho. Hoje, mesmo entre recém-nascidos, o padrão é só um macacão. Segundo o pediatra dr. Henrique Monteiro Neto, é provável que as crianças de outros tempos sentissem muito calor com todas aquelas mantas e cueiros – o que é nem é bom, pois pode aumentar o risco de morte súbita. “Rotineiramente, o bebê deve receber o mesmo número de camadas de roupa que a mãe, às vezes uma a mais. E é preciso ficar atento, porque o superaquecimento é um risco.” Os chás que os mais velhos recomendam, conforme o especialista, também não são uma boa. “Não devem ser tomados em hipótese alguma. Em primeiro lugar, porque não funcionam; depois, porque ocupam um lugar no estômago que deveria ser do leite materno. Pode até prejudicar o crescimento do bebê.”

 

Dormindo com a máquina de lavar

Muitos pais entram em desespero quando o bebê não pára de chorar. O pediatra dr. Henrique Monteiro Neto explica que a causa nem sempre é cólica. Para ele, uma voltinha de carro ou uma embalada no bebê podem, sim, resolver o problema – sem falar em eletrodomésticos, como secador de cabelo e máquina de lavar… “Expor aos chamados ruídos brancos costuma ser bastante útil, porque esses sons se assemelham aos que o bebê ouvia quando ainda estava no útero.” Existem até aplicativos de celular que emitem esses sons. Já os vídeos e aparatos eletrônicos não são recomendados. “Crianças não devem ser expostas a nenhuma mídia digital até os dois anos.” Ele lembra que essa exposição precoce está associada a problemas de sono, sobrepeso e atraso no desenvolvimento, comportamento violento – e por aí vai. “A dica é evitar, mesmo!”

 

Repensando o ideal de maternidade

“O bebê nasce, mas a mãe não nasce junto”, afirma a psicóloga dra. Maria Heloísa Coutinho, da equipe do programa Boa Hora Omint, que oferece orientação multidisciplinar para gestantes e recém-nascidos em casa, envolvendo toda a família. Segundo ela, nossa cultura coloca a maternidade como algo idealizado, mas não costuma ser fácil para a mulher lidar com as perdas de autonomia ou as mudanças no corpo e na rotina. “Parece que ela vai dar conta de tudo tranquilamente, e não é bem assim.” A psicóloga lembra que um bebê é imprevisível e, por mais que seja bonzinho, nunca é o bebê dos sonhos. “Não é fácil… E as pessoas se assustam com os sentimentos negativos, que são mais que normais.” Grupos de apoio a mães vêm crescendo nas redes sociais e podem ser uma boa ideia, conforme a especialista, mas com moderação. “Esse apoio é bem-vindo, mas também coloca pressão. É preciso achar o equilíbrio: o que serve para uma mãe e um bebê nem sempre serve para outros. Não é uma competição.”

 

Psicanálise para bebês

Setenta por cento das mulheres passam pelo baby blues – espécie de tristeza que vem com a queda hormonal – nos 15 primeiros dias do pós-parto. E não é por acaso. Conforme a psicóloga dra. Maria Heloisa Coutinho, o fenômeno tem uma função psíquica, que é ajudar a mulher a entender tantas mudanças. “É como uma TPM potência máxima.” Outra coisa é a depressão pós-parto, que é mais grave e pode exigir atenção médica. “Caso a tristeza não passe, pode ser o caso de se preocupar. Esse é o momento em que a mãe mais precisa de cuidado e todos os olhares costumam ir para o bebê. A mulher fica desamparada.” Essas dificuldades vividas pelas mães podem refletir no comportamento da prole e, em geral, têm tudo a ver com aquelas crianças que dão mais trabalho. Tudo bem, já existe psicanálise para bebês. “A gente chama de ‘intervenção precoce’, quase sempre a partir dos seis meses de vida. O tratamento é feito junto com os pais, porque os problemas costumam estar alinhados com essa relação.”

 

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SÁBIOS CONSELHOS

Dicas dos especialistas para mamães de primeira,

segunda, terceira ou mais viagens…

 

Seja realista

O parto dos sonhos é o parto possível e recomendado – daí a importância de um médico em que se confie.

 

Evite uma aventura

Partos podem ter complicações inesperadas, por isso é bom ter um médico por perto, especialmente se não estiver em um hospital.

 

Entenda-se

Mamães podem e devem pensar em si, também, sem conflitos de sentimentos: cuidar de um bebê é muito desgastante, mesmo.

 

Informe-se

Armazenar células-tronco do cordão umbilical, por exemplo, só é recomendável em alguns casos… Converse com seu médico sobre esse e outros avanços.

 

Conte com a ciência

Muitos laboratórios já fazem o exame do pezinho molecular, que complementa o teste bioquímico convencional e pode detectar várias doenças genéticas tratáveis.

 

Não pare

Gestantes não precisam virar atletas, mas práticas como yoga, tai chi chuan, pilates, deep running e natação costumam ser recomendadas.

 

Ponha o bebê de barriga para cima

…Sem travesseiro, cobertor solto ou bichos de pelúcia – e nada de dormir na cama do casal.

 

Vacine

Especialistas alertam para a importância do calendário de vacinação –doenças como coqueluche e sarampo, estão voltando.

 

Dê uma folga

“Brinquedos” tecnológicos, assim como o excesso de brincadeira, podem acabar irritando os pequenos. Garanta a eles um tempo de descanso.