Não existe yoga para gestantes

Os iogues não estavam pensando nas grávidas quando desenvolveram suas técnicas, mas os benefícios dessa prática milenar para as mães e para o bebê são inegáveis.

Publicado por administrator

10 de janeiro de 2019

 

Não existe yoga para gestantes

Os iogues não estavam pensando nas grávidas quando

desenvolveram suas técnicas, mas os benefícios dessa prática

milenar para as mães e para o bebê são inegáveis.

 

Por Otávio Rodrigues

 

Houve tempo em que atividades físicas não eram recomendadas às gestantes. Na Idade Média e mesmo depois, não raro as mulheres se recolhiam durante esse período – entre outras razões, porque a barriga poderia suscitar nos pensamentos alheios o momento de entrega ou luxúria vivido pelas damas. Felizmente, as coisas começaram a mudar com a simples observação de como as camponesas e pescadoras, que continuavam ativas até os últimos dias de gravidez, tinham mais facilidade para enfrentar as transformações no corpo e os esforços na hora do parto. Hoje, além do trabalho diário e exigências rotineiras, as futuras mães dispõem de opções para nem pensar em ficar paradas: natação, hidroginástica, deep running, pilates, ginástica localizada, bicicleta ergométrica, tai chi chuan, musculação, dança…

Um clássico nesse rol é o yoga, que para surpresa de muita gente, não desenvolveu técnicas para gestantes. “Os iogues, antigamente, não estavam preocupados em melhorar a força abdominal para que mulheres pudessem ter um parto tranquilo. Ainda que isso ajude, não é o efeito principal.” Quem diz isso é o professor Marcos Rojo, formado em Educação Física pela Universidade de São Paulo em 1975, diplomado em Yoga pelo Instituto Kaivalyadhama em 1980, PhD em Ciência do Yoga em 1999, na Índia, e mestre pelo Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 2007. “Existem técnicas que atuam na gestante de forma mais eficiente do que o yoga, ao menos no que se refere à mobilidade de movimento interno para a hora do parto. E são técnicas específicas, que trabalham [a musculatura] muito bem.”

 

O algo mais do yoga

O que distingue o yoga da ginástica e o torna tão interessante para as futuras mães, conforme o professor Rojo, é o equilíbrio entre corpo e mente. “Yoga deve ser entendido como um estado da mente. Yoga é meditação. Quando chega ao Ocidente, sim, ocorre uma divisão e passa a se tornar algo um pouco mais físico, e a meditação algo complementar. Tanto que ainda existem eventos em que se lê escrito: Yoga e meditação… Dá vontade de pegar uma caneta e colocar um acento: Yoga é meditação.” Segundo Rojo, é essa integração que se busca promover na gestante – por meio do relaxamento, dos alongamentos, das técnicas respiratórias e da meditação. “Nesse período a mulher fica ansiosa, porque vai ter um bebê, porque terá de cuidar dele, e existe também uma preocupação com a modificação do corpo. Quando fazemos yoga para gestantes, estamos pensando muito mais nesse estado geral, principalmente nessa relação emocional, do que nos beneficios físicos – mas eles existem!”

 

Matriz do alongamento

O professor Marcos Rojo, que durante 35 anos foi professor de yoga no Centro de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo, lembra que as técnicas de alongamento, hoje incorporadas às atividades físicas, são influência direta do yoga. “Para a gestante, a gente coloca o alongamento naquelas áreas em que ela precisa um pouco mais. Por exemplo, o volume abdominal gera uma lordose e essa mudança estrutural gera encurtamento de musculatura posterior, de musculatura lombar. Então podemos alongar bem essa região, dar mobilidade à coluna, dar flexibilidade à região da bacia.” Outro cânone do yoga é a respiração, igualmente trabalhada entre as grávidas. “Com toda essa modificação no corpo, com muito volume abdominal, a mulher não consegue respirar normalmente. Toda essa estrutura pode ser beneficiada com as práticas de yoga.”

 

A morada da Kundalini

Esposa de Marcos Rojo, formada em Educação Física pelas Faculdades Integradas de Santo André (Fefisa), a professora Daisy Rodrigues diz que as mulheres têm necessidades diferentes, e é bom que hoje possam encontrar tantas opções. “Natação, hidroginástica e relaxamento na piscina são ótimos, porque a gestante não pode ter aumento da temperatura corporal nem impacto, deve evitar a prática intensa. Pilates também é interessante.” Ela conta que a ideia do parto humanizado tem feito crescer algumas turmas do Instituto de Ensino e Pesquisas em Yoga (IEPY), fundado pelo casal e dois dos quatro filhos em 2005. “Vemos a volta das doulas, das parteiras, das aparadeiras, essa busca pelo natural, pelo orgânico… E o yoga traz técnicas para a mulher lidar de uma forma mais tranquila com a postura, a respiração e também com o assoalho pélvico – musculatura que já participa das práticas do yoga, mas com a qual a gestante precisa entrar em contato, deixar bem tonificada, precisa saber onde e como deve fazer a força no momento do parto.”

Alguns exercícios, como mudras e bandhas, trabalham bastante a região anal e do períneo, o que, conforme a professora, é bom não só para gestantes. “É importante para todo mundo: homens, mulheres e jovens. A toda hora a gente senta em sofá, poltrona, mas não usa esses músculos que sustentam os órgãos internos.” Com diplomas na ciência do yoga e cursos na Índia similares aos do professor Rojo, ela acrescenta que, entre outros bons motivos para manter saudável essa musculatura está o fato de o assoalho pélvico ser a morada da Kundalini. Representada por uma serpente na tradição hindu, tida por alguns como um fenômeno bioelétrico, sua subida a partir da base da coluna é associada à aquisição do estado de consciência plena.

 

Estados alterados

A despeito dos aspectos culturais e espirituais, com os quais ninguém precisa necessariamente se envolver, a eficiência do yoga é aferida de forma empírica pelos praticantes, que invariavelmente percebem os benefícios do equilíbrio corpo-mente. “Fala-se em estado alterado de consciência, que na verdade é esse em que vivemos, esse estado de agitação, de raiva, de aflição, onde a gente faz as coisas sem saber o que está fazendo – esse é o estado alterado de consciência”, afirma o professor Marcos Rojo. “O estado natural é o estado de consciência plena, de muita atenção naquilo que estamos fazendo.” O propósito no trabalho com a gestante, segundo ele, não é outro senão a aquisição desse estado meditativo, de controle, de relaxamento, de auto-observação, de observação do nenê. “O que o yoga faz é garantir que a natureza cumpra suas funções normais sem grandes interferências.”

 

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