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Soltando a voz

Especialistas nos ajudam a entender o aparelho fonador e dão dicas para cuidarmos da nossa principal forma de expressão.

20/08/2018

Soltando a voz

Especialistas nos ajudam a entender o aparelho fonador e dão dicas para cuidarmos da nossa principal forma de expressão.

 

por Angélica Queiroz

 

A ciência ainda não conseguiu determinar com clareza desde quando o homem fala, mas sabe que essa descoberta nos levará até bem antes do surgimento da escrita, há 6 mil anos. A despeito das origens, hoje existe amplo conhecimento sobre essa nossa capacidade de transformar ar em som e se comunicar de maneira eficiente, vocalizando ideias e pensamentos. Foi com esse aparelho maravilhoso que, no mês dedicado ao “Falar”, conversamos com especialistas da rede credenciada em busca de conhecimentos e recomendações, afora a derrubada de alguns mitos – por exemplo, você sabia que falar sozinho não é coisa de maluco? Boa leitura!

 

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Forma e conteúdo

Som, entonação, articulação, intensidade e ritmo. Falar envolve tudo isso, mas não só. Impossível dizer que existe um jeito certo, mas todos devem ter uma característica comum: eficiência em se fazer compreender. “Não podemos pensar apenas no processo mecânico. Falar inclui gestos, postura corporal e expressões faciais”, explica a fonoaudióloga dra. Renata Soneghet. “A pessoa pode ser brilhante no conteúdo, mas se não se apropria da fala de forma persuasiva, não adianta.” A especialista explica que fatores físicos como altura, peso e posição da laringe no pescoço, têm tudo a ver com o timbre da voz. As alterações hormonais também costumam influenciar. É por isso, por exemplo, que no período menstrual algumas mulheres podem ter uma leve rouquidão — a retenção de líquido deixa as cordas vocais mais inchadas.

 

Por favor, não grite

O volume da voz costuma ser comportamental, muito mais que físico. “Não vemos uma pessoa extrovertida falando baixo ou alguém muito tímido falando alto”, diz a fonoaudióloga Renata Soneghet. “Além disso, a gente vai modulando a nossa fala de acordo com a do outro.” Já o tom tem a ver com a laringe, onde ficam as pregas vocais. É o tamanho, a largura e a idade delas que determinam como a gente vai soar – e diferencia a voz da mulher e do homem, a voz do adulto e da criança. Isso explica porque algumas pessoas parecem conseguir atingir certos tons com mais facilidade: é anatômico. No entanto, apesar de algumas laringes serem mais favoráveis à performance musical, é possível modular a voz com técnicas específicas. “A gente não fala para uma pessoa baixinha ser uma atleta de salto à distância, mas ela pode conseguir com muito treino, ainda que com mais dificuldade do que alguém que tem as pernas longas.” Segundo a especialista, Pavarotti, que tinha um tom grave, nunca conseguiria alcançar as notas agudas de, por exemplo, Tetê Espíndola. Já para quebrar um cristal com a voz, como a gente vê em filmes e desenhos, é necessário um pouco mais do que anatomia e treino. “Precisaria um pouco de sorte.”

 

Cochichar também não é bom

Se a gente costuma ficar sem voz só de conversar competindo com a música num bar, como será que fazem os puxadores de samba-enredo, que cantam alto e com potência, sem perder as notas e dançando por quase uma hora? Assim como feirantes, professores e cantores, profissionais que utilizam a voz com alto impacto precisam se prevenir contra a fadiga vocal. A elite dos puxadores de samba costuma contar com a fonoaudiologia ao longo do ano todo – e estudos comprovam que a ocorrência de problemas diminuiu. Mas nada de extremos: cochichar também pode gerar lesões. “Em algumas doenças, como Parkinson, o paciente costuma perder a força dos músculos e a gente faz o tratamento contrário, introduzindo exercícios de impacto para dar mais tônus. A orientação é pensar alto e falar alto, para modular assim.”

 

Meu filho ainda não fala

As primeiras palavras geralmente surgem quando a criança está com um ano, mas os pais costumam ficar ansiosos se demora um pouco mais. Conforme o pediatra dr. Fábio Watanabe, há casos em que o atraso pode merecer investigação, claro, mas é importante lembrar que a fala é multifatorial. “A criança aprende pelo estímulo, sobretudo de outros seres humanos.” O especialista diz que, por isso, não é recomendado expor os pequenos a muita tecnologia. “Ela faz parte da vida do século XXI, mas seu uso tem de ser racional, com início mais tardio, porque o excesso pode ser prejudicial para o desenvolvimento da fala.” Algumas pesquisas sugerem que crianças criadas em ambiente bilíngues podem demorar mais a falar, mas o dr. Fábio Watanabe acredita que essa não seja a regra. “A rotina dentro e fora da escola influencia mais que isso.”

 

Como vai o ouvido?

Nosso input de informações acontece pela audição. E é por aí que começa a investigação do pediatra quando há atraso na fala. “A criança pode não ter qualquer problema na produção do som, mas se não tem a recepção, não consegue reproduzir por orientação”, explica o dr. Fábio Watanabe. Dependendo da quantidade de perda auditiva, soluções como o implante coclear podem ser indicadas para que o estímulo sonoro chegue ao cérebro. “No caso de a criança não conseguir ouvir absolutamente nada, essa outra forma de comunicação pode ser uma saída.” E se o problema não é auditivo, pode ser motor. “Nosso cérebro também tem de produzir alguns estímulos, como abertura de boca e posicionamento de língua.”

 

O papel dos dentes

Mais do que apenas vizinhos, dentes, lábios, língua, bochechas e palato trabalham juntos, compondo um sistema que também influencia na fala. “Sem todas as estruturas equilibradas, podem acontecer falhas e a voz ficar diferente”, explica o cirurgião bucomaxilofacial dr. Rodrigo Foronda. Segundo ele, quando esse sistema é alterado, quase que é preciso reaprender a falar, treinando essas estruturas na nova posição. “É por isso que quem usa prótese dentária ou mesmo uma criança que está trocando os dentes pode experimentar alguma dificuldade na formação de alguns fonemas, especialmente na fase de adaptação.”

 

A rouquidão que não passa

Quem nunca ficou rouco depois de um jogo de futebol? O problema é comum e costuma desaparecer naturalmente em poucos dias. Mas, atenção: se persistir depois de duas ou três semanas, pode ser sintoma de algo mais sério – hora de procurar um especialista, porque o diagnóstico precoce é o que garante a menor incidência de sequelas na voz após tratamento. “É preciso estar atento, especialmente os fumantes”, alerta o dr. Sérgio Samir Arap, cirurgião de cabeça e pescoço.

 

Robôs para ajudar

Um nervo craniano desce em direção ao pescoço e abdome, emitindo ramos que inervam a laringe e a faringe e dando vida ao sistema da voz. “Embora as chances sejam mínimas, cirurgias próximas ao nervo, como na tireóide, podem afetar a voz”, afirma o dr. Sérgio Samir Arap, especialista em cirurgias automatizadas de cabeça e pescoço. “Os robôs atuais não são tão bons nas cirurgias da laringe, mas já são excelentes opções para a faringe.” Segundo ele, haverá progressos para breve. “Um novo robô dedicado às cirurgias da laringe já está aprovado e em fase de testes nos Estados Unidos.”

 

Quando o problema não é físico

No filme Persona, um clássico do cinema, a atriz deixa de falar durante uma representação teatral. Não há qualquer causa física, ela simplesmente opta pelo silêncio. Segundo a psicoterapeuta e psicanalista dra. Suzete Louzã, trata-se de um transtorno psicológico conhecido como mutismo seletivo. “O tratamento não é o de exigir que a pessoa fale, mas de conquistar sua confiança para determinar a causa do problema.” A estratégia é uma das bases da psicoterapia e da psicanálise, ciências que utilizam a fala para tratar diversas enfermidades da mente e do corpo. “É bom lembrar que pacientes mudos, por exemplo, também podem receber tratamento psicológico em Libras – basta que o profissional também seja fluente.”

 

Falar para se entender

“Para uma pessoa que fala sem parar, a fala funciona como uma descarga e pode ser sintoma de ansiedade”, explica a psicoterapeuta e psicanalista dra. Suzete Louzã. No entanto, só falar do problema sem desenvolvê-lo não costuma ser muito útil. “As questões precisam ser trabalhadas de forma mais profunda ou os sintomas voltam.” Se a fala é um instrumento de trabalho, o silêncio também. “Ele pode expressar alguma aflição e precisa ser explorado de maneira a enriquecer o trabalho.” Falar sozinho não é coisa de maluco, pode até ser bastante saudável. “O diálogo consigo mesmo é uma forma de se entender.” E não precisa ser só em voz alta, pois temos a capacidade de conversar com a gente mesmo em pensamento. E tem muita gente se dedicando a entender como soa essa voz interior – as principais pesquisas sugerem que ela costuma ser ouvida como a nossa, mesmo, igual a de quando estamos falando.

 

O corpo humano surpreende

Não costumamos dar muita importância para nossa voz quando a temos ali, sempre disponível. Mas as coisas se tornam bem diferentes para quem percebe que pode perdê-la. Tratamentos na laringe, por exemplo, podem deixar alguma sequela na voz, desde rouquidão até a perda total – o que, segundo a dra. Elisabete Carrara, fonoaudióloga especializada no tratamento de distúrbios da voz, impacta bastante a vida dos pacientes. Felizmente, há alternativas. “É possível maximizar as estruturas que existem. Se a pessoa perde uma corda vocal, por exemplo, há exercícios para fazer com que a outra trabalhe o dobro. Essa é a parte bonita, pois as estruturas que ficam têm capacidade muito grande de compensar as que faltam.”

 

Novas formas de falar

Em casos extremos, em que a laringe é afetada, é possível ensinar o esôfago a falar. É a chamada voz esofágica. “A voz é feita de ar, então a pessoa precisa aprender a colocar ar no esôfago”, explica a dra. Elisabete Carrara, fonoaudióloga especializada no tratamento de distúrbios da voz. Os exercícios não são fáceis, afinal é algo que a pessoa nunca fez na vida. Existe a via cirúrgica, com a colocação de uma prótese que também permite produzir a voz pelo esôfago. Outras opções são a laringe eletrônica, que resulta em uma voz mais robotizada, e a prótese fonatória, que desvia o ar da traqueia para produzir o som. O importante é se comunicar.

 

 

 

SÁBIOS CONSELHOS

Especialistas falam sobre o falar e dão dicas

para evitar os problemas mais comuns.

 

Beba água

O ideal é pelo menos dois litros por dia, em temperatura ambiente.

 

Pegue leve

Fumar e consumir álcool em excesso aumentam em 150% as chances de adquirir câncer de laringe.

 

Aqueça e desaqueça

Há exercícios específicos para auxiliar os profissionais da voz, antes e depois –

cantar por duas horas é como correr uma maratona!

 

Evite choque térmico

Tente tomar os primeiros goles de café ou de suco gelado um pouco mais devagar, para que as cordas vocais não sintam tanto o impacto.

 

Durma bem

É durante o sono que a voz descansa.

 

Evite os extremos

Falar alto ou gritar são ações agressivas para a voz – tanto quanto cochichar, abuso que pode gerar uma lesão na laringe.

 

Fale direito

As crianças desenvolvem a habilidade da fala por imitação.

 

Preste atenção

Rouquidão persistente pode ser apenas sinal de que a voz não está sendo bem usada, mas pode também indicar algo mais grave. Procure um especialista.

 

Limpe a área

Ninguém sai falando mais bonito depois de escovar os dentes, mas higiene oral inadequada pode causar problemas e, por fim, afetar a fala.

 

Não se engane

Em geral, pastilhas de farmácia apenas anestesiam a garganta, fazendo com que a pessoa force a voz sem perceber, o que pode causar lesões. Vale para spray de mel com própolis e  gargarejo com água e vinagre.

 

Resista à tentação

Chocolate engrossa a saliva, o que dificulta a articulação e exige maior esforço das pregas vocais e do trato fonatório como um todo.

 

 

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